'Cold War': cortina de ferro e de amor
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
Privilegiado o público que está conhecendo esta excepcional temporada de filmes de fala não inglesa, aqueles que concorrem (e também os que ficaram de fora da seleção) este ano ao Oscar da categoria. Quem conferiu a merecida louvação endereçada à "Roma" já curtiu a nostalgia mexicana no esquema ditatorial da Netflix, ou por outras vias acessíveis e com a mesma qualidade do streaming. O belo e pungente japonês "Assunto de Família" também deixou marcas profundas. Falta conhecer o libanês "Capharnaum" e o alemão "Nunca Deixe de Lembrar". Porque agora é a vez deste maravilhoso "Cold War/Guerra Fria" ( em cartaz no Cine Aurora) , que pode dar a segunda estatueta ao diretor Pawel Pawlikowski, em 2015 agraciado com o Oscar pelo relevante drama moral "Ida".

Tela quadrada (no formato clássico da fotografia plana, medidas 4:3, não o widescreen), preto e branco estilizado (há quase nada de cinza, nenhum vestígio de cor) e apenas 84 minutos de duração. Esta foi a harmonia plástica concebida por Pawlikowski para construir um melodrama romântico com ares musicais e estética de 'film noir' realmente extraordinário. "Cold War" é provavelmente o melhor exemplo contemporâneo de síntese, rigor, austeridade e beleza para mostrar o desenvolvimento, a evolução de um amor impossível que atravessa o período do pós-guerra entre a Polônia e a França. São mais de 20 anos de paixão tortuosa e (des)encontros entre um músico e uma cantora que lutam contra algo muito mais forte que a relação que os desafia: a engrenagem da repressão política, a falta de oportunidades e um destino trágico que parece tomar conta de ambos.
Wiktor (Tomasz Kot) e Zula (Joanna Kulig) se conhecem num conservatório de artes musicais. Ele é descobridor de talentos; ela, uma entusiasta aspirante a cantora e dançarina, com um passado sombrio (matou o pai que a assediava). Entre 1949 e 1960, o espectador vai acompanhar as idas e vindas dos protagonistas, de Varsóvia a Paris, entrando e saindo legal ou ilegalmente, procurando, buscando, encontrando e rejeitando um ao outro. As contradições e o desconforto permanente vão marcar o tom e as nuances de um filme em que a figura de Stalin (em murais e cortinas) e a presença dos burocratas da hora também dominam parte da cena.
É claro que as condições políticas que cercam os personagens adquirem enorme relevância, mas aqui as paixões do casal protagonista - desejos, buscas e frustrações - preenchem aos poucos o centro da tela, terminando por ocupá-la completamente. Melhor: a incendeiam por inteiro. É preciso dizer um pouco desses dois seres. Zula, a garota loura, talentosa, atrevida e cheia de segredos, uma aparição poderosa e inesquecível. Para Viktor, embora não apenas para ele. Sob a direção de Pawlikowski, a atriz polonesa será um anjo e um demônio, 'femme fatale' e vítima, objeto e sujeito de desejo. Tomasz Kot compõe um personagem na trilha dos típicos anti-heróis românticos, dispostos à auto-destruição progressiva em nome de um amor imenso. Um pouco à maneira de Bogart, outro tanto à la Gragory Peck (a semelhança é grande).
Em "Cold War" cada cena é de uma beleza e uma intensidade comovedoras, com dois protagonistas extraordinários e bom elenco secundário. É bom que o espectador se prepare para adentrar o território mágico das elipses, aquela maneira econômica de narrar a história, aquela intencional e na maioria das vezes bem vinda omissão de códigos informativos que se transformam em facilitações, redundâncias e/ou obviedades inúteis. O filme escapa sempre da demagogia e da concessão para tornar-se uma tragédia impiedosa sobre esses tempos de Guerra Fria e amores destroçados. E com um final tão elegante quanto terrível, na melhor tradição dos líricos infortúnios. Ou dos males de amor.


