Há vários tipos de diabinhos. Os de dois, quatro, oito ou mais chifres. O mais interessante deles é justamente aquele que, independente do número de chifres, acha o inferno um lugar entediante, monótono e sem graça. Aquele que abandona as profundezas da terra para viver próximo dos homens.
No cotidiano das pessoas, esses diabinhos adoram pequenas maldades. Coisas simples como esconder as chaves do carro ou da casa, sumir com um pé de meia, entupir a pia do banheiro, soltar o cachorro dentro de casa em dia de chuva, tirar a chupeta do bebê no meio da noite, molhar o último palito da caixa de fósforo, quebrar o chuveiro no meio de um banho em pleno inverno, etc.
No livro infantil ‘‘Diabolim’’, lançado pela Editora Martins Fontes, o escritor e ilustrador alemão Helme Heine apresenta as aventuras de um desses diabinhos, o pequeno Diabolim. Na realidade, suas travessuras eram uma forma de chamar a atenção das pessoas. No fundo, gostaria de ser amado. Receber um cafuné com carinho. Achava injusto todo mundo gostar dos anjos que ficavam o dia todo passeando nas nuvens.
Diabolim acreditava que se usasse a vestimentas dos anjos, as pessoas iriam amá-lo. Sua tentativa prática nesse sentido só piorou a situação. Sem jeito para a coisa, fez uma túnica com uma toalha de mesa. Na falta de asas, amarrou um ganso no pescoço. Não é difícil imaginar o resultado.
Todas suas tentativas em ser compreendido e amado foram infrutíferas. Chegou até mesmo a entortar as pontas de seu tridente. Mas ninguém acreditava que um diabinho pudesse ser uma boa pessoa.
Desiludido, saiu andando sem destino. Coincidência ou não, foi o primeiro a ver uma casa pegando fogo. Justamente no dia em que os anjos estavam de folga, jogando bola na praia. Sem pensar duas vezes, Diabolim, sozinho, apagou o fogo e salvou a vida dos moradores.
Tornou-se um verdadeiro herói. Deu entrevista na televisão, sua foto saiu no jornal, recebeu uma medalha de honra ao mérito, foi convidado para festas sociais. Arrumou até um emprego como bombeiro. Claro que, nas horas vagas, continuou fazendo pequenas travessuras com a mangueira de água. Nada muito sério.
Nascido em Berlim, em 1941, Helme Heine é conhecido pela criação de simpáticos personagens como galo Juvenal, o porco Waldemar e o rato Frederico. Suas histórias e seus desenhos possuem uma leveza encantadora. Ele tem a capacidade de colocar a imaginação numa cadeira de balanço com vista para o mar. Apresenta a simplicidade, amadurecida pelo tempo, como um afago. No caso de ‘‘Diabolim’’, por exemplo, mostra que todo mundo quer se amado. Até mesmo os diabinhos.
• ‘‘Diabolim’’ de Helme Heine, Editora Martins Fontes, tradução de Monica Stahel, 36 páginas, R$ 14,50.

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