Colagens incessantes de dança e teatro
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quarta-feira, 22 de maio de 2002
Francelino FrançaReportagem Local 
A dança-cênica abocanhou a grade de programação dessa edição do Festival de Teatro de Londrina (Filo). Ao todo, o público londrinense pôde conferir 14 espetáculos na linha da dança-teatro (dança que produz efeito de teatro) nos mais variados estágios e tendências. Por pouco, o Filo não se tornou uma filial do Festival de Dança de Joinville.
Esse boom referenda o desgaste da dança contemporânea frente às possibilidades de expressão. A solução: busca de outros caminhos. O start se deu com coreógrafos abertos à teatralidade, reagindo contra os formalismos e se tornou conhecida sobretudo através da obra da coreógrafa alemã Pina Bausch. A mudança na gramática da dança ampliou as possibilidades criativas de encenação.
O bailarino objeto sai do casulo e se transforma em bailarino sujeito. Busca-se movimentos menos tensos, menos formais e mais soltos. A individualidade do intérprete ganha visibilidade respeitando peculiaridades técnico-interpretativas.
A dança-teatro brasileira participa ativamente desse fenômeno mundial e recebe influências, tanto quanto influencia. O painel apresentado nos palcos de Londrina permite pinçar algumas características em comum dessa vertente da dança que passa por uma fase transitória que se questiona a cada espetáculo: qual o movimento que ainda não foi feito? No palco o caos. Os movimentos remetem a estados alterados de consciência, que independem do idioma. Esse é o caso do espetáculo Jardim de Tântalo, do F.A.R. 15, paulistano, que trouxe ao Cine-Teatro Ouro Verde ousadia, técnica apurada e momentos de lirismo tendo como ponto de partida a loucura. O produto final podia remeter a qualquer universo particular do espectador, inclusive ao delírio.
Como a dança-cênica nem sempre apresenta o virtuosismo e a elegância cinestésica da dança contemporânea, a ausência de significados na sucessão de movimentos é bastante presente. O papel do público passa a ser efetivamente de co-autor do espetáculo. O desenvolvimento da dança-cênica, mais do que nunca, passa pela co-autoria do público nesse viés de estética híbrida.
No espetáculo Sebastião, com a Cia. Basirah, de Brasília, o cenário de Hugo Rodas se tornou protagonista da encenação. Catalisadora, a terra delimitou e moldou as coreografias e até imprimiu o ritmo. Em três coreografias complementares, a releitura sobre o trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado evidenciou a capacidade de entrega dos intérpretes e os desdobramentos de imagens míticas do fotógrafos.
A brasilidade transbordante da Quasar Cia. de Dança, de Goiânia, no espetáculo Coreografia para Ouvir aproximou-se dos canais emotivos do público pelo apuro técnico dos bailarinos, virtuosismo e pela trilha sonora confessional. Lições de vida conduzidas pela música primitiva de artistas populares. Um espetáculo arriscado, em que a música por pouco não engoliu a encenação.
No atual estágio da dança-cênica, o bailarino ainda está intimidado com o lado ator. É um processo. Os intérpretes se apresentam com a máscara neutra ou, no máximo, da indiferença. Quando há texto ele aparece no formato telegráfico em busca um compromisso com uma linguagem dramática definida. Para preencher as lacunas do texto, usa-se a interpretação do movimento.
Com o ator mais delineado no palco, a Compañia Marta Carrasco capitalizou as atenções no Filo 2002 com três espetáculos Aiguardente, Blanc dOmbra e Miranm. No primeiro, o solo de Marta Carrasco combinou a vertente passional com extremo domínio físico. Menos impactante, Miran m foi concebido como espetáculo expressionista e abusou da linguagem do inconsciente.
O impacto das tecnologias ainda está sendo absorvido pelas companhias. Em espetáculos multimídia, síntese do pós-modernismo cênico, uma linguagem fica menos trabalhada que outra. Com Orlando, com a Compagnie BuissonniSre, da Suiça, a presunção dos integrantes do grupo durante o Filo não correspondeu ao apresentado no palco. A sobreposição de imagens, tanto física como cinematográfica, se fundiu de tal forma que não permitiu formas de leitura. A maior parte dos filmes apresentados foram mal elaborados. Overdose visual e de informações que poderiam ser redimensionadas.
Se ainda está numa fase de transição, para onde caminha a dança-cênica? Muito provavelmente, o lado ator vai incorporar o lado bailarino, num processo lento de fagocitose teatral. Essa é a possibilidade do surgimento de um novo ator, com domínio da linguagem do movimento, se valendo de inusitadas relações espaciais.


