Nelson Sato
Pode passar na loja da esquina. Se não chegou, está para chegar até a próxima segunda-feira o novo CD dos Chemical Brothers. É o terceiro trabalho de estúdio da dupla inglesa, que fez uma generosa prévia do disco no mês passado, quando passou pelo Brasil tocando no Rio e em São Paulo.
Surrender (Virgin) recarrega as baterias de quem abandonou temporariamente as pistas de dança por ressaca da monotonia techno. O disco mantém a potência explosiva dos dois primeiros álbuns do grupo, reunindo as batidas colossais de praxe e os habituais timbres inflamáveis que garantiram a supremacia da eletrônica no mainstrean pop deste fim de década.
Mas os Chemicals, como se sabe, não são de seguir ortodoxias. Foram os primeiros a ser batizados com o rótulo big beat, cunhado pela imprensa especializada para designar a vertente que faz colagens com techno, hip hop, funk e rock. Reiterando as experiências anteriores, eles convidaram vários músicos oriundos do pop inglês e do indie rock americano para colaborar em algumas faixas do novo repertório.
O encontro reuniu Noel Gallagher (do Oasis), Bob Gillespie (Primal Scream), Bernard Summer (New Order), Hope Sandoval (Mazzy Star) e Jonathan Donahue (Mercury Rev). Vale lembrar que o primeiro e o último da lista já haviam participado há dois anos de Dig Down Your Hole, o disco anterior da dupla.
No novo projeto, o resultado dessas contribuições revela-se notável pela diversidade sonora conferida às faixas, uma característica aliás que faz do público da banda - a exemplo do que ocorre com o Prodigy - um dos mais ecléticos atualmente na cena. Não por acaso, Tom Rowlands (28 anos) e Ed Simons (29) faturaram um Grammy no ano passado em uma das categorias rock.
Noel Gallagher canta a melodiosa ‘‘Let Forever Be’’ arrastado por uma saraivada de batidas quebradas. A bela vocalista do Mazzy Star, Hope Sandoval, instaura languidez na balada ‘‘Asleep from Day’’. Jonathan Donahue fecha o disco com um folk rock, cuja suavidade em nada sugere o teor ‘‘clubber’’ do restante do repertório. Summer e Gillespie, por sua vez, dividem os vocais na sacolejante ‘‘Out of Control’’.
Também para entupir pistas, ‘‘Hey Boy Hey Girl’’ desfecha teclados hipnóticos pontuados por uma voz que grita: ‘‘Hey girls, hey boys / Superstars DJs, here we go’’. Foi o primeiro single promocional e o primeiro clipe. A grande faixa do CD, porém, chama-se ‘‘Under the Influence’’. Traz a dupla de DJs mais inspirada do que nunca, insistindo numa linha de teclado colante sob progressão de batidas em crescendo e clímax.
Surrender foi gravado em 13 meses. Mas mais do que excesso de preciosismo, a demora parece ter sido provocada pelas constantes escapadas do estúdio para tocar aqui e ali em algum ponto distante do planeta. Como o Prodigy, os Chemical Brothers (apesar do nome, eles não são irmãos) já lotam estádios e se apresentam em festivais, deixando para trás a época em que só animavam clubes noturnos para trezentas pessoas. O novo disco é mais um ingrediente para mantê-los no topo, com a agenda congestionada.

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