Coisas da arte que a vida ensina a transformar
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de abril de 2002
Rubens Pileggi Especial para a Folha 
Arte pública. Intervenções urbanas. Ações coletivas. Estado de arte sem arte, onde quem passa pode nem perceber que está fazendo parte de um evento artístico. Arte-vida. Arte e cotidiano como uma só coisa. Interação. Participação. Arte que se mistura a outros campo do conhecimento. Pesquisas científicas que têm por finalidade desenvolver um pensamento artístico. Work in progress. Arte processual. Diluição da noção de autoria. De obra. De objeto. Etc.
Hoje em dia dá para se falar sobre tudo com arte, dá para pensar em intervir em tudo com arte. Desde questões pessoais até cósmicas, passando pelos conflitos étnicos até o caos urbano e o que mais se queira. De coisas às mais extremas às mais simplórias. Mas será que, com toda essa abertura, a arte não tende a deixar também de ser arte? De perder sua poética, seu lirismo, sua subjetividade? Como diz o professor e compositor maestro Koellreuter: o máximo de objetividade é o mínimo de subjetividade, emendando, na sequência, que a arte do futuro será funcional, para desespero dos mais puristas.
Mas se for, de fato, funcional, ela estará atendendo a que interesses? É bom lembrar Jean Dubuffet, que dizia que a arte nunca está onde se espera que ela esteja, pois ela detesta ser reconhecida como tal. Donde se conclui que quanto mais definições se encontre, menos sujeita às categorias ela estará.
Quem vai embora não embolora, escreveu o poeta Paulo Leminski, assim como outro saudoso poeta, Mário Quintana, deixou assinalado que quem tem q. i., que vá!, demonstrando a idéia de um universo em constante movimento, onde o valor das coisas são sempre cambiáveis, como também prega a doutrina Budista.
Às vezes tudo muda e não muda nada, como acontece constantemente na política. Às vezes as coisas se mantém como estão, mas mudamos a nossa percepção das coisas e tudo muda. Vivemos os paradoxos, essa é a grande certeza.
O filósofo italiano Antonio Negri nos fala de populações miseráveis das grandes cidades e das adaptações, disponibilidade e mobilidade para viverem em situações precárias, informais e provisórias. Mas esta é uma condição de carência. Quando um poeta, um artista, um religioso fala de mudanças e transformações ele garante também a perenidade de sua sentença, profecia ou provocação no seio da cultura.
Eu vou desdizer agora o oposto do que eu disse antes, já filosofava nosso maluco-beleza Rauzito, em Metamorfose Ambulante. E se a questão toda se dirige para saber até que ponto a arte deveria se ater a conceitos estéticos e ou éticos, e qual o limite tolerado para que os donos do poder possam dizer, é minha, então o melhor a fazer é aproveitar o dia como ele se apresenta, sem ideologia, sem utopia, vivendo intensamente. Longa é a arte, breve é a vida, frase que vem lá de longe, da Grécia, com Hipócrates, graciosamente reinventada na canção de Jobim. Seu lugar e seu papel, é claro, se funda na surpresa e na imprevisilibildade - e não nos conceitos e definições -para vir à tona e permanecer viva.
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