Coisa de viado
COISA DE VIADO
O jornalista Pedro Bial jogou polêmica num ventilador enorme ao permitir, num descuido técnico, que uma piada preconceituosa vazasse em pleno Fantástico, da Globo
Zeca Corrêa Leite
Arquivo Folha
Pedro Bial, jornalista escritor e apresentador do Fantástico, cometeu uma gafe ricuperiana ao falar, pensando estar fora do ar, que balé é coisa de viadoA vida como ela é: o experiente jornalista Pedro Bial, que passou alguns anos correndo o mundo como correspondente internacional da TV Globo, fez coberturas de revoluções e guerras, subiu os morros cariocas e esteve frente a frente com o perigo, nunca imaginaria que cairia na armadilha de sua própria língua e do som vazado no programa Fantástico.
Isso é coisa de viado, ele teria dito no momento em que apareciam as primeiras imagens da reportagem sobre o Ballet Kirov, feita por Glória Maria (sua companheira na apresentação do programa). O microfone não fora desligado, e o que poderia ser uma brincadeira entre colegas virou um buxixo nacional.
Sinal dos tempos politicamente corretos. Porque piadinhas e alusões a bailarinos desmunhecados existiam às dezenas. A humorista Consuelo Leandro, quando encarnava uma nordestina na cidade grande, tinha como marca obrigatória lembrar que os meninos delicados de sua terra eram mandados para fazer balete. A platéia caía na risada.
O assunto transformou-se em polêmica no correr da semana, com ataques e defesas ao jornalista. Pedro Bial foi procurado pela reportagem da Folha, na produção do Fantástico, mas não retornou a ligação. Em Curitiba, alguns profissionais comentaram o ocorrido.
Albari Rosa
Os bailarinos Marcio Alves (de barba), Ailton Galvão (de vermelho) e Wanderley Lopes dão as suas versões para a gafe do Fantástico
Preconceito Latino
Quem é viado já nasce feito. O bailarino Ailton Galvão, do Teatro Guaíra, tem consigo essa verdade - não é a profissão que molda o homem. Ele, com sua opção sexual, afetiva, política e tudo o mais, é que se transporta para a atividade que escolheu. Mas como especialmente o latino ficou preso ao estereótipo do machão, medrou no povo o preconceito sobre a dança.
A falta de informação é a mãe dos preconceitos, continua o moço. Também achavam que bailarina era mulher que não prestava. Essa idéia fixa dos latinos não é comungada por outros povos, segundo Galvão. Ele esteve na Rússia e na Polônia, entre outros países, e sentiu na pele a valorização dos bailarinos nesses lugares.
O problema é a falta de cultura para as artes em geral, lamenta. Nem Bial, nem o raio que o parta têm essa cultura. Então quando vêm um homem com malha, acham que é coisa de viado.
Ailton Galvão morava em Londrina - cidade que hoje se gaba do seu festival de teatro - quando iniciou-se no teatro, ainda antes de descobrir a sapatilha. Foi mandado embora do emprego, porque ser ator era símbolo de homossexualismo.
Gays no Exército, na Igreja, na Dança...
Essa história toda em cima do balé e dos bailarinos foi, na verdade, uma simples brincadeira de Pedro Bial. Essa brincadeira em momento nenhum esteve calcada em preconceito, diz por sua vez Márcio Alves, que em fevereiro passado trocou Belo Horizonte por Curitiba e o Grupo Corpo pelo Ballet Teatro Guaíra.
Curitibano que passou bons anos fora da cidade, Alves conta que quando começou a dançar profissionalmente foi no mesmo tempo em que nascia seu primeiro filho. Preconceito maior eu tive em família, porque meu pessoal achava que a dança era uma coisa meio marginal. Porém, bastou ingressar no Corpo (que ainda não era um grupo com o poder e a importância que detém no momento), para as coisas mudarem da água para o vinho.
Bial é casado com uma artista; não acredito que tenha preconceito contra a dança. Ele não quis ofender a classe, opina. Foi quase uma piadinha, mas o próprio Márcio Alves tem amigos gays que contam piadas de gays e morrem de rir.
Em todas as profissões temos e teremos gays e lésbicas. Temos no Exército, na Igreja, onde quer que se reúnam pessoas. A sexualidade está latente no ser humano, independe da atividade que ela desenvolva.
Classe Alta É Mais Preconceituosa que a Baixa
A maior referência da dança no Paraná continua sendo Wanderley Lopes, o ex-garoto de rua que um dia viu balé na televisão e direcionou-se para ser artista. Casado com Eleonora Greca, também bailarina, foi na dança que ampliou seu mundo. Dos pátios dos orfanatos voou para lugares distantes, indo apresentar-se na França, Portugal, Coréia, Japão.
Para ser bailarino é preciso ser muito macho, não é qualquer um que aguenta a nossa carga de trabalho, avisa. Brincadeiras e comentários jocosos não o afetam, e se existe algo para lamentar é pelo fato da controvérsia ter surgido com Bial, que está na mídia o tempo todo e é casado com uma atriz (Giulia Gam).
Wanderley acredita que a frase foi dita sem maldade. Seu autor não queria atingir esta ou aquela categoria, simplesmente foi movido pela banalização que o preconceito adquiriu de que todo bailarino é homossexual.
O bailarino diz que nas classes mais baixas da população o preconceito é menor que nas mais altas. Enquanto os primeiros se encantam com aquilo que nunca viram, os de maior poder aquisitivo renegam a arte. Os pais costumam dizer que balé é coisa de viado, e vai colocar o filho para fazer caratê. Enfim, têm o poder de colocar o filho onde quiserem, comenta.
Estivéssemos num estágio superior e não haveria intolerância nem repulsa pelas diferenças de cores, de raças, de pensamentos e preferências sexuais. A liberdade ocuparia patamar mais elevado.
Com Este Comentário Bial Destrói Tudo
Para a diretora da Escola de Danças Clássicas, Debora Tadra, o jornalista causou um estrago. Foi lamentável, disse. Afinal foi através da escola dela que teve início o projeto de incentivo à dança masculina, promovido pelo Teatro Guaíra. A intenção do programa era justamente quebrar a visão preconceituosa sobre a dança. Esse é um trabalho lento, a conquista é feita a longo prazo.
A iniciativa ficou conhecida nacionalmente porque o projeto foi buscar nos meninos carentes a sua clientela. O professor Carlos Cavalcanti teve o cuidado de iniciar a turma com um repertório da dança de rua (ou street dance), para não afugentá-los. Aos poucos eles foram percebendo que o mundo dos movimentos era muito mais sedutor do que imaginavam. Ao vivenciar a dança, a pessoa descobre que isso não é coisa de viado. O bailarino é um atleta, afirma Debora.
Um Elogio aos Homossexuais
O bailarino é um atleta disciplinado, dono de uma forma física invejável e charmosa. Pedro Bial, com o comentário que fez, demonstrou apenas que acha isso dos homossexuais: são pessoas charmosas. Sem querer elogiou os homossexuais. A ironia é de Dora de Paula Soares, bailarina e proprietária de uma das escolas de dança mais tradicionais da cidade, a Stúdio D.
A gente não deve levar a sério este caso. Tem que ser levado na brincadeira. Não foi a frase do apresentador do Fantástico a mais contundente. A matéria realizada por Glória Maria foi do começo ao fim realmente preconceituosa, na opinião de Dora.
A certa altura da conversa com a primeira bailarina do Kirov, a repórter perguntou-lhe se não tinha inveja daqueles que levavam uma vida normal. A empresária reflete sobre a entrevista:
- Quem leva vida normal? Ela (Glória)? O médico que levanta de madrugada para correr ao hospital leva vida normal? O bailarino é um profissional que trabalha bastante, assim como o médico, como qualquer outro trabalhador. Agora, falar isso é coisa de viado é uma coisa tão antiga...
O episódio de domingo passado não afetou em nada a vida dos bailarinos, na opinião de Dora. Matéria preconceituosa e de poder fulminante foi uma desenvolvida pela TV francesa, no ano passado. A morte de Nureyev motivou uma reportagem sobre os bailarinos que, como ele, morreram de Aids nos últimos dez anos. Foi uma comoção nacional, como se a Aids escolhesse em que profissão atacar.
A Dança Moderna é Máscula
A bailarina Cristina Purri, diretora do Ballet Teatro Guaíra, mostra que há uma diferença básica entre a dança clássica e a contemporânea. Enquanto a primeira coloca os artistas num tom etéreo, irreal, a segunda pede elementos másculos, viris. A dança, hoje, trabalha com a sinceridade de movimentos. Tem uma verdade muito mais devassada, o bailarino se expõe e coloca o seu verdadeiro eu, o emocional. Dança, hoje, não é coisa de viado mesmo.
Apesar do imbroglio ter vindo pela tela da TV Globo, graças à televisão é que a dança de rua ganhou ainda mais popularidade, entende Cristina. O balé contemporâneo aproxima-se mais do homem comum, daquele do dia-a-dia. Não é o príncipe encantado, aquele ser etéreo.
Quanto à falta de homem nas academias, grupos e companhias de balé o problema está mais embaixo. Ele é exclusivamente de ordem econômica e nada tem de preconceito. Falta valorização profissional para a carreira de bailarino. No Brasil não temos mercado de trabalho, constata.
Como a vida útil de quem dança assemelha-se ao do jogador de futebol, ela declina na casa dos 35 aos 40 anos. Por outro lado exige exclusividade total. O bailarino não pode ter outra ocupação a não ser aquela. Para o homem essa pouca perspectiva financeira é cruel. É uma carreira de pouquíssimas possibilidades.
Voltando ao princípio de tudo, sobre a questão do ser ou não ser, Cristina é taxativa:
- O indivíduo tem a liberdade de ser o que é. Desde que diante do público corresponda ao papel que lhe foi dado a cumprir.





