Coincidências literárias
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quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Kalinka Amorim<br> Reportagem Local 
Organizar o raciocínio, direcionar o olhar, abordar o complexo, reunir dados e auto-organizar-se são critérios imprescindíveis para a construção de um texto.
Ao contrário do que muitos pensam, o texto não nasce pronto. Não basta apenas sentar e escrever. É preciso muito mais que isso. Estudo, criatividade, horas de dedicação, linhas e mais linhas, milhares de páginas lidas, rascunhos que se resumem em resmas de papel impresso, que viram teses, dissertações, monografias, livros.
Esse é o dia-a-dia de centenas de pesquisadores. Eles viram noites e noites em claro, tentando achar o ''fio da meada'' para contextualizar uma frase ou achar o ''gancho'' certo para um bom texto.
Uma pitada de ousadia, às vezes, faz toda a diferença. Foi assim na história de Edina Panichi, docente sênior da Universidade Estadual de Londrina, UEL, pesquisadora de Crítica Genética e Estilística do texto. Diante desse universo de letras, papel, tinta e rascunhos ela não titubeou e lançou um desafio a si mesma: pesquisar um autor vivo.
Edina queria a opinião do próprio autor a respeito de sua pesquisa e conseguiu. O autor escolhido foi Pedro Nava, no auge de sua carreira. Na época, o médico que virou escritor tinha ganho o prêmio Jabuti e figurava há semanas na lista dos mais vendidos da Revista Veja.
Nava brincava com personagens para criar suas histórias. Era uma dessas pessoas que se cercam de elementos visuais, fragmentos e detalhes que tornam a obra metafórica, com imagens incomuns a outros escritores.
Ao terminar a monografia, em 1983, Edina encaminhou os escritos ao médico. Para sua surpresa, ele não só respondeu, como a incentivou a continuar estudando e publicando sua obra.
Não faltaram obstáculos, até mesmo financeiros, mas a professora enfrentou tudo com criatividade e persistência. Quando as viagens ao Rio de Janeiro ficaram caras demais, ela teve a idéia de copiar os arquivos sobre o autor, o que é proibido. A idéia só vingou depois que ela conseguiu uma carta de Nava que dizia: ''Digo como os ingleses, I insist. Será honra e proveito meu que meus livros mereçam outros trabalhos seus''. Com isso e o apoio de Plínio Doyle, responsável pela Fundação Casa de Rui Barbosa, onde ficavam os arquivos, Edina conseguiu o esboço da obra ''Beira-Mar'', que deu origem aos seus estudos de mestrado e doutorado.
Sua ousadia tornou-a a única professora no Brasil a ter a obra completa de um autor em sua essência. São mais de doze mil páginas, sem contar cerca de 1.600 fichas, 1.500 bonecos (páginas de rascunho que Nava utilizava para sistematizar sua obra), 300 caricaturas.
Impressa, a obra ''Beira-Mar'' ficou com 600 páginas, devoradas em uma noite pela professora que tem leitura dinâmica e consegue ler 500 páginas em 1 hora e meia.
O contato de Edina com grandes nomes da literatura não se limitou a Nava. Ela participou do ''Sabadoyle'', reuniões realizadas aos sábados na casa do bibliófilo Plínio Doyle, onde apareciam figuras ilustres da literatura brasileira como Carlos Drummond de Andrade, Raquel de Queirós, Gilberto Mendonça Teles e Homero Homem.
Edina terminou o mestrado em 89 e o doutorado em 1994. As pesquisas deram origem ao livro ''Pedro Nava e a Construção do Texto'', que foi publicado em 2003 e indicado para o Prêmio Jabuti. Depois de tudo que estudou e aprendeu, Edina ensina que um bom texto deveria começar na sala de aula, onde o aluno recebesse subsídios do professor para pensar e produzir.
A vida da professora é cercada de ''coincidências'' literárias. Personagens como Manuel Bandeira, Érico Veríssimo e Cecília Meireles nomeiam as ruas vizinhas de casa. ''Quando falo o meu endereço, as pessoas reagem dizendo que eu não poderia morar em outro lugar.''


