O pianista carioca Arnaldo Cohen, radicado em Londres, esteve em Curitiba nos últimos dias e anunciou, em entrevista exclusiva à Folha, a assinatura de um contrato com a gravadora sueca Bis para gravar quatro CDs nos próximos três anos. Cohen, que tem uma carreira de 20 anos, gravou até hoje apenas dois CDs. O primeiro disco deve sair em final de 1999.
O repertório ainda está sendo discutido mas Cohen pretende se dedicar ao compositor Chopin, uma vez que no próximo ano completam-se 150 anos de sua morte. ‘‘Este ano, fiquei vários dias num apartamento de um amigo em Nova York e aproveitei o piano para gravar mais de 20 horas, somente de Chopin. Quero ter tempo este fim de ano para ouvir e selecionar o que será usado para a gravação do CD’’, confere.
Cosmopolita, Cohen fala de sua experiência e observações sobre a cultura do mundo e as investidas brasileiras com relação à música erudita.
DivulgaçãoNos seus projetos está uma homenagem ao compositor Chopin, que completa 150 anos de morte em 99Como o senhor analisa a música erudita no Brasil, atualmente?
No Brasil, ainda existe aquela coisa do nível cultural e social serem equiparados. O que eu acho muito ruim. Na Alemanha, qualquer jovem que faça uma universidade ou que tenha formação universitária, automaticamente tem formação cultural. Aqui no Brasil, percebo que o nível social não é proporcional ao cultural. Os universitários que têm também de trabalhar
não podem pagar ingressos para um concerto ou uma peça. Qual é o jovem que pode pagar R$ 80,00 ou R$ 160,00 se for acompanhado para assistir a um concerto?
Os incentivos culturais não têm preenchido esse espaço?
Não. Essa defasagem elitiza e deturpa a Lei Rouanet, que deveria ser uma lei de incentivo. O subsídio cultural deveria reverter para a sociedade, ao invés disso tem sido usado para promover espetáculos elitistas. Isso, porque os espetáculos realizados através da Lei Rouanet cobram ingressos da mesma forma como qualquer outro. Acaba ocorrendo uma série de distorções. A faixa social que deveria ser beneficiada, não o é. A banalização da música acaba ocorrendo em função disso.
Mas há ainda a lei municipal de incentivo...
A lei municipal, pelo menos em Curitiba, funciona melhor. As necessidades da própria comunidade são melhor atendidas. O aspecto cultural brasileiro é muito curioso pela diversificação. O tratamento do produto cultural deve atender as diferenças regionais. Não se pode comparar, por exemplo, a cultura no Acre com a cultura no Rio Grande do Norte ou em Brasília, São Paulo e Rio.
Como acontece na Europa e nos Estados Unidos, onde está seu público maior?
Nos países da Europa todos os concertos são subsidiados pela iniciativa privada. Sem isso os concertos não acontecem. No Brasil, sem as leis de incentivo nada aconteceria, mas o tratamento, lá fora, é diferente.
Hoje, não existe mais o paternalismo do governo. As empresas abatem no imposto de renda parte o que gastam com cultura. Nos Estados Unidos é um pouco diferente, porque há ainda a participação das pessoas físicas. Nas temporadas de grandes orquestras, os milionários patrocinam várias coisas.
Como está sua vida profissional. Tem vindo muito ao Brasil?
Tenho tocado bastante. Este ano, principalmente, foi muito agitado para mim. Fiz uma espécie de turnê organizada por várias pessoas aqui no Brasil, em comemoração aos meus 50 anos. Sou meio avesso à comemorações mas toquei bastante no País, apesar do Brasil representar apenas cerca de 5% da minha atividade.
Quais são as principais dificuldades no Brasil?
No Brasil, a dificuldade é, por incrível que parece, o piano. Em Curitiba, para se ter uma idéia, estreei o primeiro piano em 1971 e o outro é o do Teatro Guaíra. Aqui deve ter ainda esses dois pianos Steinway, que é o piano referência para concertistas e que deve custar cerca de US$ 100 mil.
Mas deve ser difícil ter verba para comprar um piano para concertos.
Em Santo André (SP), a comunidade se mobilizou, incentivada por um diretor de teatro, e comprou um piano para o Teatro Municipal. Cada empresário ou grupo de empresários comprou uma tecla do piano. Eu comprei a primeira tecla e em três meses o piano estava instalado. Mas ainda acho incompreensível construir um teatro e não pensar no piano, como acontece no Memorial da América Latina em São Paulo.
E em Curitiba há bons pianos? Como esta idéia pode ser aplicada por aqui?
A idéia é fazer a mesma coisa aqui no Paraná, para o teatro do Centro Integrado de Empresários e Trabalhadores do Estado do Paraná, onde vim tocar a convite do Sindicato das Industrias da Construção Civil. Eles têm um teatro muito bom, grande, com boa acústica mas não têm um piano próprio.DivulgaçãoO concertista Arnaldo Cohen que completa 50 anos de idade e 30 de carreiraElisa Marilia Carneiro

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