Coen, uma monja Zen
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 07 de abril de 2003
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
Quem vê a figura de cabelos raspados, unhas curtas e trajes que saíram do guarda-roupa milenar de uma outra cultura, não imagina que essa monja budista um dia gostou de maquiagem, salto alto e vestidos justos como toda mocinha vaidosa. É preciso revisitar os anos 60 para compreender o que levou a ex-jornalista Cláudia Dias Batista de Souza a se transformar na Monja Coen, hoje um nome definitivamente ligado à divulgação do budismo no Brasil.
A monja, que chega a Londrina na próxima sexta-feira - a convite do grupo Terra Zen de Rolândia - vai fazer uma palestra no Hotel Bourbon, além de uma caminhada para meditação no Zerão, um retiro espiritual e a divulgação do livro ''Para uma Pessoa Bonita'', escrito por sua mestra Shundo Aoyama Roshi. Ela traz na bagagem a experiência de ter passado 12 anos no Japão, sendo oito no mosteiro de Nagoya, onde mergulhou nos princípios da religião que reúne um grande número de adeptos no mundo, incluindo correntes da Índia, China, Tibet, Japão e, mais recentemente, das Américas, onde, há pelo menos um século, não é difícil encontrar templos que recendem a incenso transmitindo a sensação de serem grandes oásis de paz.
Hoje, quem vê a Monja Coen nos parques públicos de São Paulo e outras cidades brasileiras conduzindo filas de pessoas em meditação, não imagina que essa mestra gostava de andar de moto nos 60 e também não perdia shows de rock. Pudera, prima dos mutantes Sérgio Dias e Arnaldo Batista, ela chegou a namorar o americano Paul Weiss, iluminador das performances de Alice Cooper, que a levou a experiências dignas de um diário como cuidar de um holofote num concerto de Rick Wakeman que, a exemplo de Weiss, mantinha os cabelos pela cintura.
Moderna, Cláudia de Souza também não passou impune pelos apelos transcendentais dos anos 70. Quando o Ocidente começou a cruzar os caminhos do Oriente, ela foi uma entre as muitas jovens brasileiras que desembarcaram em Londres para aperfeiçoar o inglês e conviver com hábitos até então estranhos como repetir exaustivamente a sílaba OM, considerada no hinduísmo o som primordial do universo, um exercício de fusão dos seres humanos com sua essência sagrada.
Naqueles anos, os Beatles traziam da Índia a devoção aos gurus e, entre outras coisas, o conceito sonoro dos mantras entraria no repertório dos jovens cada vez mais atentos à chamada ''expansão da consciência''. Essa experiência hoje leva a monja Coen a repetir, com humor e sem cerimônia, que os Beatles influenciaram sua opção pela meditação e, mais tarde, pelo zen budismo, uma forma de vida que tem tudo a ver com a simplicidade, a solidariedade e a busca da iluminação a partir de ações que consideram o aqui e o agora.
Quando voltou de Londres com o inglês afiado e a cabeça antenada com um novo paradigma existencial, Cláudia de Souza foi trabalhar no Jornal da Tarde, diário paulistano onde foi escalada para fazer uma reportagem sobre as sociedades alternativas. Assim, foi dado o start e teve início a viagem que a levaria a mudar radicalmente seu modo de vida. Depois da experiência como jornalista, a atração pelo Oriente foi revitalizada em Los Angeles (EUA), onde se aprofundou nas práticas da meditação difundidas por Yogananda, líder espiritual indiano, fundador da corrente filosófica Self Realization Fellowship, que mantém sedes em vários países. Na busca dos preceitos que a levaram cada vez mais a aproximar-se do Oriente, ela conta que encontrou a harmonia na prática do zazen ou meditação sentada, que aperfeiçoou a partir de 1983 nos mosteiros do Japão quando, definitivamente, já tinha adotado o zen budismo como princípio religioso e de vida.
No mosteiro de Nagoya, a brasileira que decidiu ser monja conviveu algum tempo com a clausura e foi identificada pelos mestres como uma discípula que gostava da solidão, por isso quando mudou de nome - como manda a tradição budista de renomear pessoas de acordo com suas características individuais - foi chamada Coen. A sílaba Co significa só, En quer dizer círculo. Assim, a ex-jornalista cumpria a primeira etapa da metamorfose que a levaria, definitivamente, ao vôo de expansão da consciência.
Líder budista defende
a inter-religiosidade
Quem visita o site www.monjacoen.com.br encontra um currículo respeitável. Primaz Fundadora da Comunidade Zen-Budista do Brasil, a Monja Coen, aos 53 anos, cumpre uma agenda intensa, participa de encontros educacionais, faz palestras em universidades, promove caminhadas pelos parques públicos, onde pode ser acompanhada por adeptos de outras correntes espirituais, incluindo as afro-brasileiras e indígenas, tudo para divulgar princípios da inter-religiosidade, da não-violência e a propagação das culturas de paz. Além disso, cumpre as funções de praxe nas cerimônias do templo Tenzui Zen Dojo, localizado no bairro de Pinheiros, onde preside ordenações, enterros e casamentos. Também é membro do Conselho Parlamentar da Cultura de Paz da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.
Depois dos 12 anos que passou no Japão, incluindo os três anos de mestrado da tradição Soto Zen - linha budista da qual se tornou uma representante oficial - a Monja Coen voltou ao Brasil em 1995, quando começou a liderar atividades no Templo Busshinji, no bairro paulistano da Liberdade. Ali permaneceu durante 6 anos e em 97 tornou-se a primeira mulher a assumir a presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, função que não exerce mais. Em 2001, criou seu próprio centro budista em Pinheiros, depois de enfrentar situações que a levaram a deixar a direção do templo na Liberdade.
Coen é incisiva quando afirma que embora os textos sagrados não façam diferença entre homens e mulheres, a prática nem sempre corresponde aos princípios. Quando fala sobre a situação das mulheres no contexto religioso em que vive, afirma que os cargos superiores são sempre masculinos e que isso precisa ser revisto e melhorado. Mas, com muita tranquilidade, constrói seu próprio caminho defendendo direitos iguais para ambos os sexos.
No zen budismo japonês, as monjas podem se casar e Coen - que se casou no Brasil pela primeira vez aos 14 anos e se divorciou aos 17 - repetiu a experiência no Japão onde se uniu a um monge. Desta fase ela guarda boas lembranças, considerando harmoniosa a experiência de vida em comum que durou dez anos e transformou-se com o tempo numa sólida amizade. A parceria existencial, religiosa e conjugal dos monges budistas prevê uma vida doméstica tranquila. Nos anos em que foi casada em Nagoya, ela não morou no templo, mas num apartamento com o marido que dividia com ela os trabalhos da casa. Ela diz que os monges são preparados para tudo: sabem cozinhar, lavar, limpar ao mesmo tempo em que se dedicam à religião. Mesmo assim, a diferença entre os sexos é apontada em estatísticas surpreendentes. No Japão, 90% dos monges são casados e 90% das monjas são celibatárias.
Comprometida com a inter-relação das pessoas e das religiões, a Monja Coen pode ser vista sorridente nas fotos espalhadas em jornais e revistas. No Brasil, possivelmente, seja a líder budista mais procurada pela mídia. As caminhadas zen pelos parques públicos, seguidas pelos adeptos da meditação em movimento, são seu passaporte de cidadã do mundo. Ela acredita que caminhar e respirar bem ajudam as pessoas a enfrentarem melhor os problemas do cotidiano, sendo também um caminho para o auto-conhecimento. Por onde passa deixa os ensinamentos que buscam a unidade de todas as coisas do universo e tem por hábito ler quase exclusivamente os textos budistas, uma prática incansável que a afasta de outros tipos de leitura, embora se interesse pelo conteúdo dos jornais. Resquícios da antiga profissão? Melhor perguntar para ela.
Coen adora a natureza, cuida de cinco cachorros e trata a internet como uma comprovação de que a sociedade tem que ser inter em tudo. Para essa monja moderna, os computadores são a prova física de como ''os seres humanos podem ser conectados''. Uma verdade que, por outros caminhos, ela conhece a fundo. (C.M.)
Serviço:
Palestra da Monja Coen: dia 11 de abril (sexta-feira), às 19h30, no Hotel Bourbon (Alameda Miguel Blasi, 40, em Londrina), ingressos a R$ 5,00. Dia 12 (sábado): retiro espiritual para a prática da meditação. Dia 13 (domingo): Caminhada Zen no Zerão, a partir das 9 horas (saída do Anfiteatro). A visita da Monja Coen a Londrina é uma promoção do grupo Terra Zen de meditação que se reúne aos domingos (das 16 às 18 horas) no Templo Dokozan (Rua Paranaguá, 325, em Rolândia). Informações pelos telefones (43) 3341-6425 ou 9993-1188. e-mail: [email protected]
Um ensinamento
Uma diferença de um décimo de polegada
é o que separa o céu da terra .
Se o quiseres ver com teus próprios olhos,
Não deves ter pensamentos fixos
Nem contra nem a favor.
(Trecho de um poema zen)
Confira algumas palavras da monja Coen em palestras e entrevistas
Esporte é aceitar a vitória do outro com ternura
A dor pode ser um ótimo mestre.
O ciúme não é o verdadeiro amor, o verdadeiro é o que diz: vai, seja feliz!
Faça o bem, fale o bem, pense o bem!
O ser humano é alvo de três venenos: a ganância, a raiva e a ignorância que se combatem com a doação, a compaixão e a sabedoria
Calendário
Em 8 de abril é comemorado o nascimento do Buda Xaquiamuni. Hoje, os adeptos do budismo acendem incensos e velas, fazem zazen (meditação sentada) e bebem chá de erva-doce para festejar a data.


