'Código Da Vinci' abre o Festival de Cannes
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terça-feira, 16 de maio de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 2 
Por mais sério e intelectualmente empenhado que seja o Festival de Cannes, a organização da mostra não perderia a oportunidade de exibir logo de saída um reforço mundano de mídia com tal poder de fogo. De um lado, os olhos de milhões de leitores à espera das imagens que poderão ou não fazer justiça àquilo que acharam tão intrigante e fascinante, quando transformaram ''O Código Da Vinci'' em best-seller e seu autor, Dan Brown, em milionário da noite para o dia. De outro, o volumoso e estridente pacote da polêmica capitaneada por segmentos mais conservadores da Igreja Católica, nas últimas semanas em pé de guerra e desnecessariamente assustados com a teoria profana sobre Jesus, mais a patroa Maria Madalena e a filharada espalhando descendência mundo afora - história ''baseada em fatos reais'' que estaria documentada e que, entretanto, teria sido mantida convenientemente fora da vista dos fiéis, estrategicamente escondida pela organização Opus Dei, a vilã na tela e principal antagonista do filme fora dela.
E hoje afinal é dia da recém-chegada imprensa especializada reunida aqui em Cannes assistir logo cedo o produto em avant-première mundial, e avaliar se o diabo é tão feio como pintaram. Logo depois da exibição vem a promissora coletiva com todo o elenco e diretor; em seguida a resenha eletrônica fará seu carnaval e amanhã tudo estará nos jornais. Aí já será hora de esquecer as trivialidades ao redor deste filme-evento fora de competição e passar ao que realmente interessa, isto é, o festival em si.
A princípio, e ao contrário da versão de 2005, que contou com um super elenco de medalhões, este se antecipa um festival de calmaria e inegável sobriedade, sem programação pletórica ou transbordamentos ou excentricidades, mas com ''surpresas, revelações, emoções, tudo com um recorte humano'' - palavras do presidente Gilles Jacob. Há quem diga, com certo veneno, que o melhor do ano não chegou aqui a tempo e vai ficar para Veneza, em agosto.
Vinte filmes concorrem à Palma de Ouro, sob os olhares de um júri de estrelas (La Belucci, Tim Roth, Samuel L. Jackson, Zangh Zhi) presidido pelo diretor Wong Kar-Wai. Destas duas dezenas de títulos, somente meia dúzia traz assinaturas mais óbvias para os habituês, como Almodóvar, Nanni Moretti, Ken Loach e Aki Kaurismaki, o homem que colocou a Finlândia no mapa do cinema. Há uma turma de ascendentes intermediários, entre eles Sophia Coppola, Alejandro González IÀarritu, Nicole Garcia, o sempre estranho Bruno Dumont, Richard Linklater. E um bloco onde, supostamente, estão as apostas mais enfáticas quanto à novidade, originalidade e/ou revelação. É aqui que a atenção deve se concentrar.
Nomes como a inglesa Andréa Arnold, o belga Lucas Belvaux (não desconhecido, mas também nenhuma consagração até agora), o franco-argelino Rachid Bouchareb, o turco Nuri Ceylan, o português Paulo Costa, o francês Xavier Giannoli, o chinês Lou Ye (único asiático na competição), o mexicano Guillermo Del Toro, o argentino Adrián Caetano e o americano e caçula da seleção, Richard Kelly.
Provavelmente também muitas descobertas na principal paralela Um Certo Olhar, sempre pródiga em novidades - e com não raro mais estimulantes do que a mostra principal. E ainda a garimpar com zelo a Quinzena dos Realizadores e Semana da Crítica, duas veteranas e respeitáveis ''senhoras'' que completam a oferta anual de preciosidades.
Num conjunto que privilegiou em especial europeus e logo em seguida latinos, o Brasil ficou meio à deriva. Três curtas metragens aparecem na programação e concorrem a prêmios. ''O Monstro'', do carioca Eduardo Valente, é um dos dez candidatos à Palma de Ouro na categoria. ''Justiça ao Insulto'', de Bruno Jorge, está entre os 17 selecionados na seção Cinéfondation, para produções realizadas em cursos de cinema - ele é da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo. E ''Alguma Coisa Assim'', do paulista Esmir Filho, aparece na 45 Semana da Crítica.
O Brasil está presente ainda com mais um filme, também na Semana. É a estréia no longa de Kirill Mikhanovsky, russo radicado nos Estados Unidos que filmou no Nordeste, com atores brasileiros (Chico Diaz, entre eles), o drama ''Sonhos de Peixe''. E finalmente, o crítico de ''O Estado de São Paulo'', Luis Carlos Merten, integra o júri do prêmio Caméra D'Or , que elege, entre todas as seções, o melhor primeiro filme de um diretor. Merten é o primeiro jornalista brasileiro a integrar um júri em Cannes.
Este ano quem vai dar a Lição de Cinema é o diretor Sidney Pollack (''Entre Dois Amores''), e a Lição de Ator fica por conta de Gena Rowlands.


