Se o começo dos anos 80 proclamou como nova tendência a volta à pintura, com destaque para as questões do expressionismo matérico, uma vez que instaurava conceitos da própria arte conceitual, por outro lado, certamente, muito se deve ao reconhecimento que o grupo CoBrA obteve a partir dos anos 60.
O grupo CoBrA, cujas iniciais são formadas pelos nomes das cidades Copenhagem, Bruxelas e Amsterdã, é contemporâneo da chamada ‘‘action paint’’ norte-americana, cujos representantes, como Jackson Pollock, praticavam um tipo de pintura denominado de ‘‘expressionismo abstrato’’.
O curioso é que enquanto os Estados Unidos afirmavam sua hegemonia planetária depois da Segunda Guerra, a Europa era considerada como lugar estagnado criativamente que já tinha contribuído com sua parte para a construção cultural da humanidade. Enquanto nos EUA os artistas ficavam ricos, em Paris alguns elementos do CoBrA chegaram a passar fome, trocando quadros por maços de cigarro ou latas de sopa.
Na verdade, nem Pollock nem CoBrA, fizeram uma revolução formal na arte – já havia o expressionismo, tanto quanto o abstracionismo. A grande novidade foi a atitude destes artistas diante da arte e do mundo.
Com o intuito de se desvencilharem do dogmatismo centralista do fundador do Surrealismo, André Breton, o grupo se propôs a mostrar uma visão que fosse política e, ao mesmo tempo, humanística do mundo, deixando de lado a teoria e a sisudez e voltando-se para uma pintura simplificada, baseada na espontaneidade das crianças, gestual, mas também visceral, irada às vezes. De esperança e angústia.
O grupo chegou a pintar vários trabalhos conjuntamente, várias mãos, diluindo assim a noção de autoria da obra de arte e exercitando a prática de um fazer coletivo. Sua ambição era ampliar as fronteiras culturais, sociais e geográficas, em contraposição ao personalismo e ao nacionalismo. Pregavam a liberdade de expressão e de comportamento, que mesclasse o indivíduo ao coletivo. Suas cooperações se estendiam também entre cientistas músicos, escritores e diretores de cinema. O grupo chegou a ter vários integrantes em seus dois anos e pouco de atividade, mas seu principais integrantes foram o dinamarquês Asger Jorn, o belga Charles Dotremont, que era poeta e o holandês Constant.
Jorn, por exemplo, talvez o mais voraz dos artistas do grupo, chegava a comprar quadros de outros pintores, fazendo intervenções pictóricas sobre eles – em uma verdadeira devoração crítica e cultural –, para colocá-los em seu próprio contexto criativo.
Quem quiser conhecer de perto alguns trabalhos do grupo, ainda tem até o dia 31 de outubro para ver 98 obras que estão expostas na Casa Andrade Muricy, de Curitiba e que mostram todo o vigor de um dos mais importantes movimentos e grupos surgidos na Europa do pós-guerra.
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