Cobertos de história
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de outubro de 2012
Mariana Trigo <br>TV Press 
A primeira leitura que se faz de um personagem é visual. As vestimentas, acessórios e adornos trazem informações imediatas para toda a compreensão que se deve ter sobre suas principais características. Quando as tramas são de época, o esforço é redobrado, como por exemplo preparar as vestimentas dos povos que viviam há 5 mil anos para a minissérie ''José - de Escravo a Governador'', que estreia em janeiro na Record.
Além de transparecer a classe social ou personalidade de um personagem, estão implícitas no figurino as pesquisas sobre determinado período histórico, como os anos 20 retratados em ''Gabriela'', a Belle Époque de ''Lado a Lado'' ou os anos 80 na minissérie ''Queridos Amigos''. O traje também carrega as mais marcantes influências culturais de uma época e precisa ser envelhecido para mostrar a ''vivência'' da roupa e parecer o mais realista possível.
No remake de ''Gabriela'', o estilo Art Déco, que já influenciava a arquitetura e a arte na década de 20, com suas linhas geométricas e retas, também está costurado no figurino da década. Na trama, Malvina, personagem de Vanessa Giácomo, é a maior representante da moda revolucionária da época, que surgia libertária para a mulher com o fim do espartilho. A cintura era rebaixada, com tecidos de cores fortes e contrastantes. As peças eram franjadas em vestidos sempre fluidos, que não marcavam seios e quadris.
Labibe Simão, figurinista da produção, também se inspirou na estilista Coco Chanel para compor Maria Machadão, vivida por Ivete Sangalo, que sempre aparece com brincos e colares pesados e o japonismo presente nas mangas largas e longas que inspiravam poder. Já as cabeças eram comumente adornadas por chapéus enterrados até os olhos, modismo da época. ''Mas Gabriela usa peças atemporais, com uma sensualidade que sempre mostra alguma renda ou uma alça em seus vestidos de algodão'', explica a figurinista.
Pouco mais de 10 anos antes desse período, se passa a trama das seis da emissora, ''Lado a Lado''. Com todo o requinte da Belle Époque, seus babados e anáguas, as referências da moda no início do Século XX copiavam os modismos lançados na França e Inglaterra. As mulheres de classes mais altas se vestiam com diversas camadas de roupas e não saíam de casa sem luvas, chapéus, sombrinhas e uma infinidade de acessórios.
Figurinista da trama, Beth Filipecki explica que os trajes mais trabalhados e envelhecidos foram do núcleo pobre, que passaram por processos de desgaste com uma tintura especial. As personagens de classes baixas usam figurinos mais decotados, feitos de tecidos amarrados ao corpo com diversas emendas. Nos pés, estas dificilmente usavam calçados.
Para também se enquadrar visualmente no temperamento dos personagens, a figurinista trabalhou com matizes específicos. Marjorie Estiano, que vive a ousada mocinha Laura, usa casacos escuros. ''Jamais uma moça naquela época vestiria casacos nessas cores'', salienta Beth. Já Constância, a vilã burguesa de Patrícia Pillar, se veste com a leveza do tom azul hortênsia. ''Trabalhamos com metáforas sobre cor'', filosofa a figurinista.
Enquanto o passado próximo é repleto de referências de pesquisas em livros, internet e fotos, retratar as vestimentas dos povos que viviam 3 mil anos antes de Cristo tem sido uma tarefa árdua para a figurinista Carolina Li, que prepara as roupas da minissérie bíblica da Record, ''José - de Escravo a Governador''. Para a trama, que estreia em janeiro de 2013, a figurinista tem se inspirado em livros de arte, filmes bíblicos e se permite uma frequente liberdade de criação. ''No caso dos hebreus e egípcios, não temos referências históricas visuais específicas e preciso criar um figurino que seja interessante para a televisão'', argumenta a figurinista.
Para isso, Carolina ousou em uma ''liberdade poética'' no uso das cores dos trajes dos hebreus. ''Se fôssemos totalmente corretos, só usaríamos marrons e beges. Mas preciso de cor nas imagens na tevê'', observa. Para mostrar um trabalho convincente, com envelhecimento e desgaste natural de povos que atravessavam desertos e viviam em lutas, a figurinista usou vários métodos, como estonagem dos tecidos - uma lavagem, muitas vezes com pedras ou produtos especiais, que desgasta a roupa -, pintura de arte com tratamento artístico para os egípcios e pós de vários tons que dão a aparência da poeira do local que habitam.
''O mais interessante em trabalhos que precisamos inventar é a provocação. Isso a tevê dificilmente faz. Quando fiz o figurino de 'Capitu', ele precisava teatralizar cada gesto dos atores. São trabalhos que estimulam a pensar. Usamos o olhar enviesado que Machado de Assis tinha sobre Capitu em todos os figurinos femininos'', esmiúça Beth Filipecki, sobre a minissérie de Luiz Fernando Carvalho adaptada da obra que se passava no Século XIX.


