São em encontros despretensiosos que surgem as grandes idéias. Foi em um deles que o menino Milton Nascimento, recém chegado de Três Pontas (MG), encontrou os irmãos Borges na Belo Horizonte na década de 60. Nas idas e vindas dos bailes da vida, a dupla Milton e Lô Borges acabou arquitetando aquele que seria um dos discos mais emblemáticos da música nacional.
Em 1972, ''Clube da Esquina'' chegou às lojas, trazendo em sua fina estampa um manancial de tropicalismo, beatlemania, psicodelia tropicalista e rock rural. Exatamente 36 anos após aquela criação, outro tipo de encontro traz o ''Clube da Esquina'' novamente à superfície. Da cabeça da gravadora EMI e do produtor Guto Graça Mello nasceu o projeto ''Flores do Clube da Esquina''. ''No começo recusei o convite'', revela Guto. ''Não conseguia enxergar como fazer uma releitura de uma obra tão genial como essa.''
A nuvem negra se dissipou quando a idéia de temperar o Clube com mulheres foi imaginada pelo produtor. ''Pensei em um clube da luluzinha. Fazer um espelho do Clube da Esquina que, exceção de Alaíde Costa, era todo formado por homens'', fala Guto. Alaíde, no LP de 1972, interpretou a canção ''Me Deixa em Paz'', que na nova versão, mais perfumada e colorida, ganhou a interpretação de Teresa Cristina e Seu Jorge, um contraponto proposital. ''Fiquei muito tocada por poder dividir essa música com o Seu Jorge'', comenta Teresa.
A cantora, reconhecida por sua verve sambista, diz ter agradecido Guto. ''Nenhum artista gosta de rótulos. Adorei poder fazer algo calcado na MPB.'' Guto aponta a canção como uma de suas favoritas do disco: ''Fiquei emocionado'', relembra. Assim como a cantora que, antes da gravação, balançou para aceitar o convite. ''O que me deixou mais tranquila foi o fato de a voz do Seu Jorge ser muito grave. Não teria muito como fazer firulas.''
Além desta versão, Guto aponta a parceria de Vanessa da Mata e João Donato em ''Um Girassol da Cor do Seu Cabelo'' como antológica. A caliente Marina de La Riva emprestando sua voz para a latina ''Dos Cruces'' e Roberta Sá na esteira de ''Tudo o que Você Podia Ser'' também deixaram o produtor com o coração na boca.
Tudo isso acontecia sem que Milton Nascimento ou Lô Borges soubessem. Foi necessário um ano para que o projeto ganhasse corpo. ''Quando o Milton soube que iríamos regravar o Clube da Esquina, ficou apavorado. Mas no final, aprovou e adorou todo o disco'', fala Guto.
Mesmo tão discutido e laureado, o primeiro álbum do Clube da Esquina não fez necessariamente parte da vida das 12 cantoras do álbum. Teresa Cristina chegou ao estúdio da EMI com sua música ensaiada, mas sem conhecer a obra anteriormente. ''Assim que aceitei o convite, fui direto ao computador. Sempre fui fã do Milton, mas não do Clube da Esquina''.
Do outro lado da superfície, a mineira Marina Machado não só sempre foi fã do Clube como é apadrinhada de Milton Nascimento. A cantora divide os vocais com seu mentor em ''Nuvem Cigana''. ''Toda minha formação vem do Clube da Esquina. Cantava suas músicas nos barzinhos'', retrata. Mariana encarou o projeto como algo despretensioso. ''Os arranjos são mais comerciais. Mexer numa obra dessa é como tentar regravar algo da Elis.''
A vocalista Fernanda Takai, também mineira - que canta com Milton Nascimento ''Um Gosto de Sol'' -, fala sobre sua ligação com a música do Clube: ''Não faz parte da minha formação musical diretamente, mas moro em Minas há tanto tempo que toda a cena se construiu de certa forma em torno dele. Quando eu era adolescente, queria só ouvir Blitz e rock inglês: Cure, Duran Duran. Passei a conhecer mais sobre o Clube quando eu mesma comecei a fazer música já no Pato Fu e entendi porque o som e as composições são referência para muita gente aqui e lá fora. É um som sofisticado, letras muito boas.''
Takai foi surpreendida com o dueto com Milton na canção que interpretou no álbum. E também espera ter a mesma sensação quando escutar o disco. Ela, assim como Teresa Cristina, ainda não teve a oportunidade de escutar a obra pronta. As duas esperam que o disco faça com que a nova geração preste atenção em todo o movimento.
Cristina dá o tom de como encarou uma obra com cantoras díspares como Ivete Sangalo e Marjorie Estiano: ''Nunca mais vou ter a oportunidade de estar no mesmo disco de artistas como essas. O espírito do Clube da Esquina voltou.''

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