'Close Up' usa universo de simulacros para discutir o cinema
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 24 (AE) - Há um mistério chamado Abbas Kiarostami. Anima "Close-Up". O filme do Espaço Unibanco de Cinema já é um dos grandes do ano que recém-começou. Pode-se esperar muita coisa nos próximos dez meses, mas este filme ficará, com certeza. Kiarostami realizou-o em 1990. Na época, ele já tinha uma equipe pronta para iniciar uma filmagem. Foi quando leu nas páginas de polícia de um jornal de Teerã a trama que lhe causou forte impressão. E ele fez "Close-Up" em regime de urgência, abandonando seu projeto anterior.
Prepare-se para uma rara experiência. É um documentário e muito mais. Um filme sobre o cinema, uma discussão sobre o falso e o verdadeiro, sobre a pós-modernidade que marcou os anos 80, uma reflexão sobre a arte e a forma como ela consegue melhorar a vida. O mais impressionante é que Kiarostami fez o filme sem nem ao menos digerir quais seriam suas intenções. Ele ia improvisando e reescrevendo o roteiro. Um verdadeiro work in progress.
A história que Kiarostami encontrou no jornal - e que lhe despertou tanto interesse que ele resolveu filmá-la - é a de um homem pobre e desempregado, Ali Sabzian. Fazendo-se passar pelo cineasta iraniano Moshen Makhmalbaf, de "Gabbeh" e "O Silêncio", esse homem se infiltra na casa de uma família rica. Ganha a confiança de seus integrantes prometendo filmá-los. Descoberta a farsa, Sabzian é levado a julgamento. A família alega que ele queria aproveitar-se deles e, quem sabe, assaltar a casa. O próprio Makhmalbaf intervém.
Kiarostami, autor dos geniais "Gosto de Cereja" e "O Vento nos Levará" - exibido na Mostra Internacional do ano passado -, filma o processo, reconstituindo, com os próprios interessados, o jogo de simulacros e sonhos que se estabelece entre eles e que remete à essência mesmo do cinema. Depois de ver esse filme, o espectador terá outra percepção de um filme como "A Maçã", que o próprio Makhmalbaf escreveu para sua filha Samira dirigir. Por mais interessante que seja, há um abismo entre Samira Makhmalbaf e a genialidade de Kiarostami.
Sabzian, o próprio cineasta disse isso, não é um mitômano. É alguém que, sinceramente, gostaria de ser outro. E o tema do filme, um deles, pelo menos, é justamente o mecanismo de projeções e transferências de personalidade entre as pessoas. Sabzian gostaria de ser Makhmalbaf. O cinema preenche o vazio de sua existência, compensa todas as agruras do seu cotidiano. Mas ele não é o único a querer ser outro. O jornalista sonha com as reportagens de Oriana Fallaci, o motorista de táxi é um aviador, o religioso é o juiz e o comerciante é padeiro.
Ninguém é o que parece ser ou ninguém está satisfeito consigo mesmo. Sabzian pede a Kiarostami que traduza seu sofrimento, que o assuma e faça dele o motivo de seu filme. Kiarostami, quase sempre mais metafísico do que social, pode ter outras intenções, mas é sensível a esse sofrimento. O falso Makhmalbaf fala do desemprego e do abandono em que vive. Não só ele. Vira porta-voz de um estrato marginalizado da população iraniana.
Em "Gosto de Cereja", Kiarostami usou as entrelinhas da história de um suicida para fazer um retrato muito crítico do Irã dos aiatolás. A ausência de crianças naquele filme, a desolação da paisagem, as figuras dos desempregados deambulando nas ruas de Teerã, tudo isso perfazia uma visão crítica que lançava fortes dúvidas sobre o futuro do Irã dos aiatolás. A recente eleição iraniana expôs o grau de insatisfação da população, principalmente das mulheres e dos jovens, com o regime.
A crítica já está em "Close-Up", feito há dez anos. Sabzian, que ama Makhmalbaf e por isso quer ser (como) ele, diz que a obra do cineasta é o espelho do sofrimento do Irã. Sua voz no tribunal comove a própria família injuriada. Com Makhmalbaf, intervindo no relato, ocorre o desfecho que é um dos grandes momentos do cinema nos últimos anos. Irã - A origem do cinema iraniano, não se cansam de dizer os críticos, está no neo-realismo, o movimento que floresceu na Itália, após a 2.ª Guerra, quando o país derrotado olhou para dentro de si mesmo, à espera ou à procura de um renascimento. Na trilha aberta pelo neo-realismo surgiram cineastas que, em todo o mundo, usaram o cinema como um instrumento para compreender e, se possível, mudar a realidade. Grande autor - "Cahiers du Cinéma" dedicou-lhe um número inteiro, definindo-o como "magnífico" -, Kiarostami encerra seu filme sob o signo da reconciliação. O cinema, realmente, melhora a vida. O jogo de espelhos e simulacros que ele cria em "Close-Up" encerra uma lição estética e moral. Na verdade, é o caminho que, passando pela definição das identidades, sela o conhecimento como patrimônio que aproxima as pessoas.


