Desde que o mundo é mundo os homens matam as mulheres por ciúme. Também as mulheres estão matando homens pelo mesmo motivo, mas este é um fenômeno mais recente, por conta da cada vez maior paridade entre os sexos. O tema está em ‘‘A Perfect Murder’’ (Um Crime Perfeito), versão up to date de um clássico menor de Alfred Hitchcock, ‘‘Disque M para Matar’’, e que foi exibido em Veneza na mostra paralela Notti e Stelle. Com direção de Andrew Davis, o filme traz Michael Douglas no papel do marido traído (Ray Milland, na versão original) e Gwyneth Paltrow fazendo a esposa vivida em 54 por Grace Kelly. O filme é fraco, não por dever qualquer coisa ao modelo hitchcockiano, mas por esquecer o bê-á-bá do gênero, como por exemplo noções básicas do suspense mais rasteiro.
Em Veneza apenas como ator, Michael Douglas recebe a Folha para uma rápida entrevista (o tempo é severamente controlado pela relações públicas da Warner Bros.) numa suíte-master do Hotel Excelsior, vale dizer, no espaço equivalente a um dos nossos três-quartos-sala-banheiro-cozinha. Esportivo, modelo europeu, rosto de garotão universitário já marcado por vincos diversos e pela indefectível herança fisionômica paterna - o buraco no queixo do velho Kirk é a trade mark da família - Michael Douglas é um dos mais bem-sucedidos nomes de Hollywood, seja como ator ou produtor. Há pouco foi nomeado pelo secretário-geral da ONU como uma espécie de embaixador da paz, o cargo honorário que foi de Audrey Hepburn. O sorriso é cativante, e é impossível não se render à simpatia, embora às vezes o olhar traia uma certa desconfiança. Prudência, seria mais correto dizer. Responde em inglês, mas teima em introduzir frases e palavras em um espanhol tenebroso, com certeza aprendido com os bandidos latino-americanos de ‘‘Tudo por uma Esmeralda’’.


Nos últimos anos, seus personagens são cínicos, moralmente discutíveis, um pouco distantes das características de good guys. Seu papel mais famoso é o do policial ex-viciado em drogas e de moral dúbia em ‘‘Instinto Selvagem’’. Alguma razão especial?ReproduçãoMichael Douglas: ‘‘Esperar seis meses para dizer a verdade é inaceitável’’Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Enviado especial a Veneza

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