Clint Eastwood está de volta no policial "Crime Verdadeiro"
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quarta-feira, 05 de maio de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 06 (AE) - Há tempos que você não ouve os críticos dizer: é um grande Clint Eastwood, um filme absolutamente imperdível. Não se iluda: pensando bem, Clint é sempre imperdível. É um dos raros grandes autores em atividade no cinema americano atual. Mesmo quando erra, casos de "Um Mundo Perfeito" e "O Jardim do Bem e do Mal", faz filmes intrigantes que superam, e muito, a moeda corrente da produção hollywoodiana. É o que ocorre com "Crime Verdadeiro", que estréia amanhã (07).
Aparentemente, é um policial corriqueiro, sobre um veterano repórter indicado para cobrir, para o seu jornal, a execução de um homem que matou uma grávida. A idéia é fazer uma reportagem humana, sobre os últimos instantes de um condenado à morte. Clint é um homem desencantado, mulherengo, com problemas no trabalho e no lar. Intransigente no exercício de sua profissão, teve de abandonar um cargo importante em Nova York para terminar como repórter de um pequeno jornal numa cidade menor. Se há uma coisa em que esse homem confia é no seu faro. E o que ele fareja, contra todas as expectativas, é que o condenado é um homem inocente. A corrida é contra o relógio, para achar as provas e impedir que ele seja executado.
O cinema contou algumas histórias em tempo real. O exemplo mais famoso é "Matar ou Morrer", o western de Fred Zinnemann em que Gary Cooper faz o xerife que busca ajuda para enfrentar o pistoleiro que vem, para acabar com ele, no trem do meio-dia. E há os filmes que concentram o tempo, tipo "Nove Horas até a Eternidade", de Mark Robson, que dramatiza, do ponto de vista do assassino, as últimas nove horas antes do assassinato de Gandhi.
"Crime Verdadeiro" segue a última vertente. São seis ou sete horas até o horário marcado para a execução e, nesse período, o repórter Clint não tem de correr apenas atrás de provas, desmontando a versão oficial, na qual é possível vislumbrar o racismo, já que o assassino é um negro, como tal sumariamente acusado (e condenado) pela sociedade branca. Clint também tem de enfrentar e, se possível, resolver, o imbróglio que é a sua vida: dorme com a mulher do seu editor no jornal, faz sofrer a própria mulher, não dá a devida atenção à filha. Não são poucos os problemas e o que eles colocam em pauta é o tema de "Crime Verdadeiro": as escolhas que uma pessoa tem de fazer, principalmente as escolhas morais.
Nos melhores filmes que realizou, "Bird", a cinebiografia de Charlie Parker, "Coração de Caçador", outra biografia, a de John Huston, e "Os Imperdoáveis", que lhe deu o Oscar, Clint filmou homens na fronteira da loucura e da criação, condenados a andar pela borda da morte como forma de aplacar o desespero de espíritos ameaçados pelo grande vazio da existência. O repórter de "Crime Verdadeiro" pertence um pouco a essa linhagem, embora o filme não tenha a mesma dimensão angustiada e transcendente. Na sua aparência mais simples, é um filme sobre a segunda chance, tema por excelência do cinema americano.
O repórter reassume a sua segunda chance, mas não se pode dizer que, ao renascer, ele tenha resolvido seus problemas, num final feliz. A família já era o tema de outro dos filmes recentes de Clint, "O Poder Absoluto", em que ele criticava o poder político, mas confiava na reserva moral da vida familiar. A sociedade é vista como rascista e doente em "Crime Verdadeiro", há observações relevantes sobre o papel da imprensa, mas o eixo da discussão é outro: o herói separa-se da família, mas ao tema da família desfeita, num desfecho com fundo de neve, em clima natalino, superpõe-se a integridade e a firmeza da outra família, que foi até o limiar da morte, tudo enfrentou e venceu.
No gesto dos dois homens que se olham e trocam um aceno discreto, Clint dá uma lição de integridade. Não é um grande Clint, o que não deixa de ser uma contradição em termos, pois Clint, pela excelência do seu cinema, virou sinônimo de grande. "Crime Verdadeiro" é mais uma obra menor, mas Clint soube permeá-la com tantas densidades e sutilezas que o resultado é mais do que simplesmente apreciável.


