Clint Eastwood deixa sua marca em Cannes
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sexta-feira, 23 de maio de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Cannes<br>Especial para a Folha 2 
Com uma última presença e esperança brasileira, termina hoje a mostra competitiva do 56º Festival de Cannes. A Janela Aberta, curta-metragem do carioca Philipe Barcinski, concorre com outros oito selecionados à Palma de Ouro na categoria. Os últimos longas concorrentes, o segundo filme do Japão ( Shara) e o quinto da França (Les Côtelettes), também serão exibidos hoje. Salvo bombásticas surpresas de última hora por conta desses títulos crepusculares, o mapa da premiação continua sinalizando na direção de Dogville e Les Invasions Barbares, com o turco Uzak, o francês Swimming Pool e o americano Elephant aparecendo com chances de premiação periférica na solenidade de encerramento, amanhã a partir das sete da noite no Grand Théatre Lumière.
Vigésimo-quarto filme dirigido por Clint Eastwood, Mystic River é um envolvente, poderoso drama psicológico com ressonâncias shakespeareanas, um estudo ambíguo sobre a frágil e sempre vulnerável natureza humana. Baseado em best seller homônimo de Dennis Lehane lançado em 2001, é a história entrelaçada de três homens e suas famílias, dos terríveis acontecimentos que moldam suas vidas, da escolha que cada um deve fazer e que vai resultar irreversível. Eles são Dave (Tim Robbins), Jimmy (Sean Pean) e Sean (Kevin Bacon). Quando crianças, os três levavam vida normal de garotos na periferia de Boston, jogando hockey nas ruas. Tudo corre normalmente até o dia em que dois estranhos disfarçados de policiais colocam Dave num carro. Quatro dias depois ele reaparece. Mas o desaparecimento de Dave na presença dos amigos vai marcar para sempre a vida dos três, que crescem e amadurecem em direções que os mantêm separados.
Vinte anos depois, o assassinato da filha de Jimmy circunstancialmente reúne o trio. Sean é detetive da Divisão de Homicídios e Dave é o principal suspeito pela morte da garota. De novo aqui a marca pessoal de Eastwood e que é exatamente o seu registro autoral. Como em seus melhores trabalhos atrás das câmeras, mais uma vez ele demonstra habilidade e sensibilidade para lidar alternativamente com a natureza distorcida de seus personagens, levando o registro bem além do confinamento estereotipado de filmes de gênero - no caso, o policial. Dramas sobre assassinatos sem solução aparecem com freqüência como meramente um filme de mistério, mas no caso de Mystic River o argumento mostra como, muito além do crime, todos os envolvidos sofrem a contínua violentação causada pelo abuso sexual de um adolescente, mesmo ocorrido muitos anos antes. No elenco, algumas boas chances de premiação.


