São Paulo, 21 (AE) - A exposição Zero e Sistina, que Paulo Climachauska inaugura amanhã (22) à noite, na Galeria Baró Senna, é de uma secura incômoda. Como se quisesse eliminar toda a interferência que pudesse desviar a atenção do público do jogo conceitual que propõe, o artista criou dois ambientes extremamente áridos. No térreo da galeria, quatro mesas toscas ocupam o centro do cenário, mas o real protagonista da instalação intitulada Zero são as operações de substração simples que ocupam as superfícies das mesas (nas quais estão escavadas a canivete) e as paredes da casa.
No segundo andar o procedimento se repete, com um pouco mais de recursos, com a instalação Sistina, uma referência explícita à Capela Sistina. Trata-se de um pequeno mezanino, cujo teto foi pintado de preto. Sobre essa superfície, Climachauska voltou a fazer suas continhas de subtração utilizando lápis branco (como se fosse um negativo do trabalho). Também faz parte dessa instalação um andaime construído em cobre
que ampara uma chapa de vidro repleta de operações matemáticas.
A construção do trabalho é muito simples. "Parti de um procedimento básico, quase anônimo, que é o de riscar a mesa, ou escrever na parede", explica o artista. Ele não tem nenhuma preocupação com o aspecto estético do trabalho. "Muito pelo contrário, ele tem a marca da minha mão, o que para mim é muito importante", diz. "A cultura se transforma cada vez mais num produto e eu estou criando algo que não pode ser repetido, comprado, muito menos industrializado", explica.
Climachauska faz questão de afirmar que suas referências são brasileiras, que seu trabalho se insere na trajetória da arte conceitual desenvolvida no País a partir das décadas de 60 e 70. Mas ao contrário dos artistas dessa geração, como Waltércio Caldas, o artista abandona completamente o aspecto formal da obra. "É proposital essa ausência de sedução", explica Climachauska.
Segundo ele, algumas instalações (como Sistina) têm uma forte presença, mas não uma sedução envolvente. "Para mim o que interessa é deixar claro o discurso." Nesse caso, o discurso é um comentário sobre o fato de as pessoas pensarem que os vários sistemas (econômico, social, político) são construídos a partir da edição de novos elementos quando, na verdade, o que lhes dá contornos definidos é o processo de extração (exatamente como faz o artista ao escavar as mesas com o canivete).
"A gente sempre acha que os sistemas foram construídos pela adição, mas as operações de subtração são de uma ordem muito maior", explica. Apesar do evidente caráter conceitual de seu trabalho, não há nenhuma razão filosófica que explique essa atual obsessão de Paulo Climachauska pelas contas de subtração.
Trata-se, na verdade, de um sutil e hermético comentário do artista sobre a construção do mundo. "Se a gente tem um sistema cultural, fazemos determinadas escolhas, mas elas são apenas um recorte do real", explica. "Tudo aquilo que não é considerado pelo sistema, que foi subtraído, são as infinitas possibilidades que você teria e que você não utilizou", acrescenta.
No fundo, há também uma certa ironia em seu discurso, pois é como se ele procurasse mostrar que não há grande diferença entre o zero e o infinito. Não é à toa que o resultado das continhas que faz obsessivamente nas paredes e mesas terminem sempre em dois zeros entrelaçados, ou seja, o símbolo do infinito.
Essa linha de trabalho é relativamente recente na trajetória de Climachauska, que sempre atuou no campo da instalação e da escultura. Suas primeiras experiências do gênero foram mostradas no ano passado em exposições no Paço das Artes e na mostra coletiva Panorama, do Museu de Arte de São Paulo. Serviço - Paulo Climachauska. De segunda a sexta, das 11 às 19 horas; sábado, até as 14 horas. Galeria Baró Senna. Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 296. São Paulo.

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