Em tempos de Internet, as cartas manuscritas e enviadas por correio não foram deixadas de lado por quem quer fazer seus pedidos de Natal. O endereço do bom velhinho seja no Pólo Norte, na rede mundial de computadores ou na imaginação de alguém foi muito lembrado neste final de ano. Em Londrina, os Correios receberam 427 cartas para o mesmo destinatário neste Natal.
A empresa costuma receber muitas correspondências endereçadas a Noel. E para quem pensa que o destino delas é incerto, engano! Os pedidos são avaliados e encaminhados a padrinhos que se tornam papais noéis de crianças e adultos. O coordenador comercial dos Correios em Londrina e região, Tobias Florentino da Rosa, conta que este ano foram atendidas cerca de 200 cartas.
Há 12 anos a empresa realiza o Projeto Papai Noel, que indica padrinhos para as cartas enviadas. Os Correios procuram parceiros na comunidade e voluntários dentro da própria empresa. Os funcionários são os primeiros a adotar cartinhas. No ano passado, no Paraná, foram recebidas mais de cinco mil cartas. Desse total, cerca de duas mil foram adotadas.
Na planilha dos Correios, uma variedade de pedidos aparece discriminada. E não são apenas materiais. Além de novos brinquedos e das tradicionais bicicletas, bolas, bonecas e carrinhos, as crianças também pedem emprego para o pai, a reconciliação de pais separados ou até que Noel atenda a pedidos de crianças mais necessitadas. Os adultos também arriscam.
Os pedidos de ''gente grande'' vão se somando, entre curiosidades e necessidades: cestas básicas, leite, cesta de Natal, roupas e sapatos para os filhos, material escolar, bíblia, dinheiro para pagar dívidas, emprego, tijolos, fazer compras em um supermercado, ir ao shopping para ''comprar coisas para a ceia de Natal''. Há quem ache certos pedidos estranhos mas, quando menos se espera, alguns são atendidos.
A entrega dos presentes dos Correios ocorreu ontem à tarde, debaixo de muito sol, na Concha Acústica, área central de Londrina. Para a maioria, a espera valeu a pena. Daiane, 7 anos, voltou para a casa com uma cesta básica e mais três presentes, que ela nem lembrava mais o que era. ''Eu já sei escrever, mas foi minha mãe que pediu os presentes. Agora eu só vou abrir em casa''.
A pequena Raquel, 6 anos, ficou feliz da vida com a primeira bicicleta que ganhou. ''Ligaram lá na casa da minha avó para me avisar''. Gente grande também ganhou presente. A agente de saúde Sílvia Maria Pereira, 28 anos, vai poder construir sua sonhada casa no Conjunto Alexandre Urbanas (região Leste). Ela levou para casa um símbolo dos dois mil tijolos que ganhou de Papai Noel. ''Entreguei com fé e deu certo. Vai dar para fazer a casa toda'', afirmou Sílvia, que vai contar com a ajuda dos amigos para levantar três cômodos onde ela vai morar com os dois filhos.
Mas nem sempre é possível atender a todos os pedidos. O Papai Noel Ricardo Purpur, que pelo segundo ano tira fotografias com crianças em um shopping da cidade, conta que elas fazem os mais variados pedidos um simples brinquedo, um computador ou presentes que não podem ser comprados. Os que não tem condições, explica ele, dificilmente pedem algo que não esteja ao alcance da família. ''O Papai Noel não ilude as crianças'', comenta.
No entanto, alguns pedidos deixam Papai Noel em situações delicadas. ''Um garoto me disse que não queria que a avó tivesse morrido'', conta. ''Outro dia uma criança pediu emprego para o pai. Essas coisas comovem a gente'', diz Ricardo Purpur, que também acumula pedidos de paz, amor e saúde da criançada.
Esse Papai Noel também recebe muitas cartinhas diariamente. Entre os pedidos, uma criança pede uma boneca e fala da tristeza da mãe por não poder comprar nada para os filhos no Natal. Em outra, uma pequena pede um computador... ou um beijo do velhinho. Um mãe desempregada faz um apelo para que a filha de cinco anos ganhe uma boneca. Algumas crianças recortam e colam na cartinha até o anúncio com preço do brinquedo que esperam ganhar de Natal. Tudo na confiança de que algum Papai Noel atenda o pedido.
A pequena Ana Flávia, 4 anos, moradora do Conjunto Chefe Newton (região Norte), agradou bastante o Papai Noel para fazer seu pedido: uma boneca. Não interessa qual, mas ela quer uma boneca. Já Leonardo, 8 anos, quer brincar em casa, na Vila Casoni (região Leste), com um carrinho de controle remoto.
Kédima, 6 anos, do Jardim Bandeirantes (região Oeste), levou pessoalmente uma cartinha ao Papai Noel pedindo sua primeira bicicleta. Gabriel, 7 anos, morador do Jardim Ideal (região Leste), pediu ao Papai Noel uma guitarra. Mas não é muito grande pra você? ''Não!'', apressa-se em dizer o garoto, que vai tocar o instrumento para acompanhar as músicas do grupo Br'oz que ele canta.
Para surpresa da mãe, o tímido Mateus, 7 anos, de Cambé, pediu a Papai Noel uma árvore de Natal. Não, não precisa ser uma enorme como aquela do shopping alerta o garoto.
O comerciante Carlos Roberto do Amaral, que estréia como Papai Noel em outro shopping da cidade, diz que exercer a função neste Natal tem sido emocionante e gratificante. ''É muito bom... a coisa mais gostosa do mundo'', diz o Papai Noel que acolheu inúmeros pedidos enquanto distribuía balas e beijos para as crianças.

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