Pense numa cidade superpopulosa, em que faixas de pedestres e semáforos têm mera função decorativa, as buzinas são artigo indispensável, o ar seco e poluído tinge tudo com a cor do deserto, o verão pode chegar a mais de 40 graus e em que os habitantes (de imensa maioria árabe), mesmo assim, usam calças compridas, sapatos fechados, e as mulheres se cobrem literalmente até a cabeça.
Mas pense, também, numa cidade de 15 milhões de habitantes em que essas mesmas muçulmanas podem praticar aula de remo no Nilo e você pode comprar um belo sanduíche de falafel, tomar café da manhã à base de foul (a saborosa e apimentada pasta de fava) e tomar litros e litros de chá de hibisco gelado. E ainda dar de cara com uma estátua do faraó Ramsés II em pleno trânsito caótico - o monumento, de 125 toneladas, foi removido para perto das pirâmides no último dia 25 de agosto - ou com a Mesquita de Al-Azhar, uma das mais importantes para os islâmicos sunitas e palco de intensas manifestações. Assim é o Cairo.
Nada melhor para começar a conhecê-lo do que navegar por sua principal artéria: o Nilo. Não é à toa que a capital é conhecida como ''A Jóia do Nilo''. Cortando a cidade em direção ao norte, onde deságua no Mediterrâneo, o rio, que no sul é bucólico e rural, não chega a ser um Tietê. Porém, classificá-lo como limpo e saudável não é propriamente sua melhor definição.
Mas a vida da cidade pulsa às suas margens. Nelas, em praças e parques, casais passeiam nos fins de tarde sem as mãos dadas, já que o recato islâmico não permite demonstrações tão públicas de afeto.
Cafés, restaurantes, residências, prédios e até casas flutuantes (as awamas) dão ao Nilo um ar incomparável com qualquer outro grande rio. Ao longo do tradicional bairro de El Kit-Kat, várias delas se estendem até um ponto onde as residências viram restaurantes flutuantes. Em um deles, você pode alugar uma feluca (espécie de barco típico) e navegar pelo rio. Esse passeio pode ficar para o fim de tarde, quando o pôr-do-sol dá um colorido único às águas do Nilo.
Antes, aproveite para pedir um menu tradicional, com muito pão egípcio (um tipo de pão árabe um pouco mais espesso e muito saboroso), coalhada, babaganuche (pasta de berinjelas), azeitonas pretas e, claro, tomate e pepino. Prepara-se para comer muito tomate e pepino. Em todas as refeições.
E que tal jantar num dos restaurantes mais antigos e prestigiados do Cairo? A atmosfera única do Abou El Sid (www abouelsid.com) faz você pensar: ''Sim, estou no oriente''. Peça o prato especial da casa, o pombo recheado com arroz -aproveite também que lá é um dos poucos lugares que servem bebida alcoólica no país. Uma cervejinha no fim da tarde no bar da esquina? Nem pensar. Prefira o chá de hibisco, delicioso.
Mas as pirâmides são logo ali? Perguntam todos ao constatarem que Gizé, a planície que abriga as três grandes pirâmides do Egito, fica a poucos quilômetros do Cairo, ainda na região metropolitana. Quem pensa que para conhecer a Esfinge e os túmulos de Quéops, Quéfren e Miquerinos é preciso caminhar horas sob o sol do deserto vai se decepcionar. Basta tomar um táxi em qualquer lugar do Cairo e, em menos de 30 minutos, você estará diante da única maravilha do mundo antigo ainda existente.
Avistar Quéops em seus 137,16 metros de altura é tão impactante quanto a decepção de descobrir que não há sequer um guia oficial que possa ser contratado por um turista que não faça parte de um grupo agenciado. O que há são beduínos autênticos, e outros nem tanto, ávidos por levar desavisados em passeios de camelo por um percurso de dois quilômetros - e que pode ser feito a pé. Para entrar em Quéops, paga-se 100 guinés ou libras egípcias, e 40 libras egípcias em Quéfren. Miquerinos está fechada à visitação.
A realidade do Museu do Cairo (www egyptianmuseum.gov.eg), que abriga mais de cem mil peças de todas as dinastias do Egito antigo, não é muito diferente. Funciona mais como um grande depósito que detém, por exemplo, todo o magnífico conteúdo da tumba de Tutancâmon, inclusive a famosa máscara mortuária de dez quilos. A entrada simples custa 20 libras egípcias. (F.G./AE)

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