Clima de botequim
Agência Estado
Coisa de livro de recordes, o MPB-4 é o conjunto vocal com mais tempo de vida com a mesma formação. Surgiu em 1963, em um centro acadêmico, em Niterói, resultado de um encontro de garotos que se manifestavam politicamente e gostavam de música: dois estudantes de engenharia Miltinho e Magro Waghabi , um de advocacia Ruy Farias e um aspirante a sociólogo, Aquiles Reis.
No começo eles eram o Quarteto CPC (de Centro Popular de Cultura, espécie de grupo acadêmico que se multiplicava pelo País). A sigla tornou-se perigosa, depois de 1964. O grupo virou MPB-4, de Música Popular Brasileira. A sigla há quem não goste dela foi criada pelos meninos. Ou, pelo menos, cristalizada por eles.
Em 1999 o MPB-4 realizou uma muito bem-sucedida temporada no Teatro Rival, no Rio. Foi tão boa que eles resolveram gravar o show. O resultado é o disco Melhores Momentos (lançamento CID www.cid.com.br). Melhores Momentos não só porque tem os melhores momentos do show, mas aqueles momentos que o grupo considera constar da lista dos melhores de toda a carreira.
O forte do MPB-4 é o palco, diz Ruy Faria. Quando a energia do corpo, instigada pelos jovens músicos da sua banda, consegue se transferir para um CD gravado ao vivo, aí temos, realmente, nossos melhores momentos. Os jovens músicos são filhos dos protagonistas o baixista João Faria, filho de Ruy; o baterista Marcos Feijão, filho de Miltinho; o guitarrista e bandolinista Pero Reis, filho de Aquiles. Os outros músicos da banda são Marquinhos Esguleba (percussão), Jorge Simas (violão de sete cordas) e Alceu Maia (cavaquinho). Além, claro, do violão de Miltinho e dos teclados de Magro, responsável pelos arranjos do grupo.
O espetáculo realiza-se como se o grupo estivesse num bar, o Bar do Bode clima que o disco reproduz, até pelo inevitável coro da platéia nos números de maior sucesso. Na contracapa, Aquiles Reis escreveu: Imagine um bar. Qualquer bar. O Bar do Bode, por exemplo. O bar do MPB-4. Onde fica? Ora, esse bar está em todo lugar. Ali na sua esquina mesmo tem um. É o tipo de bar que você carrega dentro da alma. Lugar para beber e cantar. Para falar mal do governo. Na falta de um espaço físico permanente, criamos um bar delivery. O bar que vai até você. Pode ser levado para a praia ou no carro. Sintam-se em casa. Ouçam. Cantem. O bar é nosso.
Vamos a ele, pois. O disco tem 16 faixas, algumas com mais de uma música, e alguns textos que apresentam os números. Textos engraçados é outra marca do MPB-4, o humor de fino tempero. Abre com O Cafona, de Marcos e Paulo Sérgio Vale. Atenção para as aberturas vocais escritas por Magro. Segue com Yolanda, de Pablo Milanéz, na versão de Chico Buarque. O MPB-4 a canta em acordes de quatro notas. Uma arte que o arranjador oficial do grupo desenvolveu como ninguém.
Sim, porque ao lado da graça, do humor, dando substância ao sucesso, aqueles quatro meninos têm extraordinário talento. A música que fazem é de imensa seriedade e criou um padrão para grupos vocais (o equivalente feminino é o Quarteto em Cy; a conta principal fecha nesse balanço) jamais superado.
A faixa seguinte dá dimensão de outra capacidade ímpar: a do uníssono irretocavelmente timbrado (e não há nada mais difícil para um grupo vocal do que cantar em uníssono): é um sambão, de João Bosco e Aldir Blanc, a obra-prima De Frente pro Crime. Há mais, de João e Aldir: Ronco da Cuíca e A Nível de (uma das melhores letras de Aldir, e, vale dizer, da música brasileira). Claro, de César Costa Filho e o mesmo Aldir, Amigo É pra Essas Coisas.
Miltinho, que tem dois discos-solos (lançados já em CD) mostra duas de suas composições, Cicatrizes e Velha Guarda da Mangueira, ambas com Paulo César Pinheiro. A segunda é nova. A primeira foi um grande sucesso. Não faltaria Roda Viva (já que há muitos superlativos, mais um: é o melhor arranjo de Magro), que o grupo defendeu com Chico Buarque no histórico festival da TV Record, O Que É, o Que É?, de Gonzaguinha, Velho Ateu, de Eduardo Gudin e Roberto Riberti, Samba do Avião, de Tom Jobim, Fé Cega, Faca Amolada, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, a polêmica musical entre Wilson Batista e Noel Rosa enfim, o que se gosta de ouvir cantado pelo MPB-4. Saúde, pois.





