Cleyde Yáconis e sua arte que não tira férias
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sábado, 20 de dezembro de 2008
Bruna Fioretti<br> Agência Estado 
Cleyde Yáconis acaba de completar 85 anos e não quer parecer uma ''velha'' ranzinza. E não é. Avessa a fama e moda, critica as ''facilidades'' da juventude. Seu palanque? O teatro.
A senhora emenda temporadas no teatro. Não gosta de férias?
Não dá tempo de tirar férias. Eu não posso, filha, me permitir parar de trabalhar. Estou fechando 85 anos. É perigoso. E tenho prazer de fazer papéis extraordinários, de mulheres velhas. Se estou agora na idade para fazer essas fantásticas personagens femininas, então não posso perder o presente que a vida está me dando.
A senhora fez muitas personagens maduras. Elas são mais profundas?
Elas acrescentam mais, sim. São papéis complexos. Nenhuma pessoa com 20 e poucos anos tem esse número de acontecimentos na vida - principalmente as que eu faço, que desempenham uma função histórica, social, política. Não é que todo mundo mais velho seja melhor, mas a soma dos conhecimentos é inevitável. A soma das tristezas, dos baques na vida, das felicidades também. Tem uma gama de conhecimentos humanos, não no sentido cultural, que vem com a idade.
E sua lucidez e memória, sempre elogiadas, como as mantém?
Já estou apanhando um pouquinho, mas pouco, não posso me queixar. Tenho problemas, seria impossível não ter falhas. Antigamente eu lia uma vez e já decorava. Agora tenho que ler umas dez. (risos)
A senhora é chamada de dama do teatro. Como encara o título?
Bobagem. Prefiro operária do teatro.
Hoje há menos operárias?
Infelizmente acho que sim, né? Mas não é o teatro. Eu não gosto muito de falar porque senão você fica aquela velha crítica da juventude. É que eu lastimo a juventude não ter hoje o que tive na minha juventude. Acho muito gostoso esse 'não importa, tudo bem'. Mas acho que os jovens ouvem muito pouco 'não' atualmente. E o 'não' faz parte da vida. Eu tenho medo, vocês têm muito pouca expectativa do futuro. A juventude está com excesso de facilidades. Então diminui a luta pela conquista. Tudo é permissível e permitido. Não sei se é legal, tenho dúvidas.
Isso se repete no meio artístico?
Também. Até no amor, no romance, no sexo, é tudo fácil. Não sei. Era tão bom namorar descomplicado, sabe? A emoção do primeiro beijo... Hoje vejo criança de dez anos beijando de língua na boca e fico muito triste, porque a criança não está pronta para escolher. As primeiras coisas são muito fáceis. Mas isso não é crítica, é uma certa pena. Não vai voltar o que tive na minha juventude.
Bate um saudosismo?
Não, sempre olho para a frente. Estamos procurando uma outra peça. Ontem li mais uma, mas é o mesmo problema: dois velhos na cadeira de rodas, um com falta de memória. Não quero! Não quero fazer uma velha desse jeito, me recuso! (risos) Senão eu passo um atestado de que a velhice é um terror. Não quero admitir isso. A velhice não é uma maravilha, não vamos exagerar. (risos) Tem coisas péssimas, mas tem coisas maravilhosas.
Por exemplo?
Como estar com você perguntando curiosa a meu respeito.
E é verdade que ainda tem o hábito de subir em árvores?
Ah, eu faço isso, sim. Com todo o cuidado. Faço musculação, ginástica, eu me cuido e acho que a prova está no meu corpo.
Quanto disso é vaidade?
Não tenho vaidade. Eu cuido do corpo porque me é cômodo. Não como porcaria, aliás como pouquíssimo, durmo bem, mas não tenho vaidade. (mostra as unhas sem esmalte). Acho bobagem, não faço plástica, vou envelhecendo. Gosto da pele limpa, passo creme no corpo porque a pele resseca. Minha roupa é velha, usada, não tenho nada de grife. Há 50 anos só uso calça comprida, por conforto.
Há uma explicação para não gostar de moda e de mídia?
Não. Acho tudo bobagem: roupa, jóia, carro importado... Tenho um corsinha, sempre tenho carro baratinho. Grife, moda, não me conformo. A moda está ridícula. As mulheres de 40 com vestidinho da filha. Embarcam numa coisa econômica. As drogas e a moda são duas drogas. Não posso entender como pessoas inteligentes têm que estar na moda. Acho burro! Mas não gosto de ficar como crítica... Vamos resumir: por que não embarco? Porque meus valores são outros.


