Curitiba Três mulheres sonhando em mudar de vida. Poderia ser apenas uma coincidência trivial não fosse por um detalhe: na ânsia de realizar seus sonhos, elas tomam um mesmo rumo e clandestinamente embarcam no bagageiro de um avião. O embarque simultâneo também poderia ter sido só mais um acaso, se esse avião não fosse o boeing da United Airlines sequestrado e lançado diante de uma das torres gêmeas do World Trade Center, no Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001. E se na vida real não foi possível conhecer a vida e os sonhos de cada um dos 65 passageiros que morreram no desastre, um exercício de imaginação da diretora Cleide Piasecki leva a história das três personagens fictícias, que supostamente se esconderam na aeronave, para os palcos.
Escrito e dirigido por Cleide Piasecki, o espetáculo ''Levar flores sem lhe ver'' estréia hoje, em Curitiba. ''O espetáculo fala sobre o lado patético do ser humano e como é possível rir dos próprios erros'', conta a diretora. Apesar da abordagem, a montagem é uma comédia. ''O objetivo é que as pessoas se identifiquem com o espetáculo. Olhem as cenas e pensem 'meu deus, eu já paguei esse mico''', brinca Cleide. Ela revela que duas coisas chamaram a sua atenção para o assunto e foram determinantes para escolher a temática da peça.
Uma delas foi o fato de que as pessoas que estavam no avião lançado sobre o prédio americano ''se desintegraram no ar''. ''Não foi possível nem identificar os corpos, foi uma coisa horrível. Mas no final o ser humano é isso mesmo, vive 30, 40, 80 anos e depois de desintegra, cai no esquecimento'', diz a diretora.
O outro fato é que o próprio acidente que matou milhares de pessoas já estava esquecido meses depois, ultrapassado por notícias mais ''quentes'', tão ou mais grave quanto o atentado terrorista. ''É engraçado, estamos velando os mortos do dia. No dia seguinte a gente não se lembra mais do que aconteceu e mesmo os casos mais recentes já são encarados com certa nostalgia'', lamenta.
Partindo desse princípio, Cleide criou três personagens, com três objetivos: tentar a vida na América, casar-se com um bombeiro e levar flores a três ídolos famosos: Frank Sinatra, Clark Gable e Rodolfo Valentino. Coincidentemente também as mulheres são três Marias Maria Ana, uma bibliotecária; Maria da Graça, uma florista ex-funcionária de uma funerária e Maria Suzete, uma taxidermista que sonhava em ser cantora. Para realizar esses sonhos, as ''marias'' embarcam no avião, mas encontram o destino trágico que o espectador já conhece antecipadamente por causa do link com a vida real.
Para escrever o texto, a diretora se dedicou primeiro a trabalhar a interpretação dos atores com base no esboço das personagens. ''Com alguns detalhes, criei parte do texto, mas isso foi mudando ao longo do processo de ensaio'', conta. A decisão faz parte de uma estratégia para ''limpar'' as referências de personagens anteriores interpretados pelos atores. ''Um ator é como uma colcha de retalhos, carrega muita coisa e para um novo espetáculo é necessário que ele se recicle e esteja livre para receber novas informações'', diz a diretora.
Para tanto, a sintonia entre direção e atores é fundamental. Um dos atores, Fernando Bachstein, conhece bem esse ajuste, já que trabalha há quase uma década com a diretora. os outros atores que integram o espetáculo (Márcia Gómez, Tuca Fanchin, Manuel Nogueira) trabalham pela primeira vez com Cleide. ''O Fernando foi uma espécie de referência nesse processo'', observa a diretora.
Bachstein fez uma atuação memorável em ''A feia'', espetáculo dirigido por Cleide em 1994 e que ganhou os prêmios paranaenses de melhor texto, direção, ator (para Bachstein), atriz, ator coadjuvante e figurino. Outras produções de Cleide, e que Fernando também participou, também foram premiadas, como ''O dedo volúvel do destino'' e ''Eis o Cidadão'', de 2001.
Mas depois de ''Eis o Cidadão'', Cleide decidiu deixar os palcos e se dedicar a jardinagem e ao paisagismo. Voltou só agora por causa de um convite parar dirigir um espetáculo que inicialmente era para falar sobre mulheres, com textos de Luiz Fernando Veríssimo. O texto original ficou para trás, mas em compensação marca o retorno da marca pessoal que Cleide imprime nas suas produções.
E apesar de ter se encantado com as flores e jardins, depois de estrear ''Levar flores sem lhe ver'', ela já pensa em levantar outra produção teatral, também assinando texto e direção. Trata-se de um projeto antigo sobre as rainhas Elisabeth e Mary Stuart com o nome provisório de ''A morte das rosas''.


Serviço:
- ''Levar flores sem lhe ver''. Estréia hoje, às 21 horas, no Teatro José Maria Santos (Rua 13 de maio 655), em Curitiba. O espetáculo fica em cartaz até 5 de outubro, de quinta a sexta-feira (ingresso a R$ 2,00) e sábados e domingos, com ingressos a R$ 5,00.

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