Cláudio Cretti expõe sua arte em branco e preto em SP
Cláudio Cretti expõe sua arte em branco e preto em SP14/Mar, 15:27 Por Ana Weiss São Paulo, 14 (AE) - Claudio Cretti explica a sobriedade da mostra que inaugura amanhã (15) para convidados como uma necessidade de silêncio visual. Mais que isso, vê a opção por materiais como o mármore de Carrara, o granito negro e a madeira maciça (no caso, o cedro ebanizado) como uma tomada de posição frente às tendências que sucederam o modernismo. "Tudo que é pós-moderno me incomoda", observa o artista, que não usa cor em nenhum dos objetos - desenhos e esculturas - que mostra na Galeria Marília Razuk até o dia 10. "Não é nada contra a cor, mas contra a arte barulhenta, a arte-espetáculo", ressalta o artista, que fez uso de cores em trabalhos anteriores. "Apenas o preto e o branco conseguem promover esse ambiente de concentração, o que permite uma observação mais cuidadosa das tensões sutis de cada peça". Nas esculturas - feitas dos materiais que o artista classifica como "fora de moda" -, essa atmosfera de silêncio é quebrada pela desconfortável sensação de desequilíbrio, provocada pela estrutura das peças. Os objetos, pesados em sua constituição, são construídos ligeiramente fora do eixo de equilíbrio, de forma que a densidade das peças parece desafiar a gravidade e a percepção visual. "As estruturas também fazem com que o olhar do espectador deslize até um determinado momento em que se defronta com uma indecisão", descreve Cretti, que vê na propriedade das formas incertas e improváveis uma maneira de dar ao objeto a aura de inacabado. "Por isso, acredito que o momento de parar meu trabalho é uma das principais questões do meu processo de criação". Dispostas no chão, as esculturas de Cretti, sempre confeccionadas em blocos únicos, são consequências de desenhos prévios e maquetes. O artista adverte que as estruturas foram calculadas para que sejam decifradas apenas depois de olhadas de todos os lados. De acordo com ele, essa visão tem a ver com a idéia de forma infinita, sobre a qual "olhares escorregam sem conseguirem fixar em ponto algum". "Jamais parto da experimentação dos materiais para depois realizar o projeto", explica o escultor. Ainda assim, considera essa estratégia intuitiva. No catálogo da exposição, o artista reproduziu um trecho de um texto de Jorge Luis Borges para ilustrar essa opção pelo limite das formas e dos espaços da mostra: "Compreendeu que não podia recordar as formas, os sons e as cores dos sonhos; não havia formas, cores nem sonhos, e não eram sonhos. Eram sua realidade, uma realidade mais além do silêncio e da visão e, por conseguinte, da memória". A memória, aliás, é para o artista um dos mananciais de sua atividade. "É do repertório de minhas lembranças que tiro as idéias de minhas criações", comenta Cretti, que desde criança coleciona pedras. Os desenhos da mostra não trazem projetos de objetos. Eles são objetos em si, autônomos, deslocados e sem cor como as esculturas. Também da mesma forma que as peças de pedra e madeira, os quadros sugerem o desequilíbrio e a vertigem, nas palavras do autor, "um desvio sutil, que cria tensões por meio da matéria que tenta se libertar da gravidade". A matéria, no caso dos desenhos, é o bastão a óleo, visualmente denso como o mármore ou a madeira e também ligado aos instrumentos tradicionais da criação plástica. "Nos desenhos, a tensão é criada pelo espaço, como se a matéria oleosa também travasse uma batalha com o seu peso", observa o artista. Nos desenhos, que medem 1,55 m por 0,9 m, ele cita questões ligadas ao modernismo como a construção geométrica. Serviço - Claudio Cretti. De segunda a sábado, das 10h30 às 19 horas. Galeria Marília Razuk. Avenida 9 de Julho, 5.719, tel. 881-9853. Até 10/4.





