São Paulo, 23 (AE) - Claudia Amorim começou a investigar a própria imagem um pouco por acaso. Após se ter dedicado com afinco a pintar modelos vivos, a artista viu-se diante da impossibilidade de seguir esses exercícios durante as férias, já que ninguém se dispunha a ficar parado diante de seu olhar inquisidor. A solução foi o auto-retrato. Há pouco mais de dois anos, Claudia assumiu com prazer o desafio de captar a própria expressão diante do espelho e acabou produzindo várias séries de pinturas, que podem ser vistas na mostra "Verônica", que será inaugurada amanhã (24) na Galeria Nara Roesler.
A série de trabalhos que dá título a exposição foi inspirada em Santa Verônica, uma mulher que supostamente enxugou o rosto de Jesus na sexta estação da via-crúcis, obtendo no lenço a impressão de seu rosto.
Além da idéia da impressão (repetida pela artista por meio da monotipia, técnica que utiliza para realizar suas telas), essa história contida num evangelho apócrifo seduziu a artista por dois outros motivos. Em primeiro lugar, o tema está presente em toda a história da arte ocidental, tendo fascinado ícones da pintura como Zurbarán e El Greco. Além disso, Claudia descobriu em suas pesquisas que Verônica quer dizer "a verdadeira imagem".
As referências histórico-religiosas estão presentes em praticamente todos os trabalhos da exposição, mas Claudia faz questão de ressaltar que seu trabalho não tem nada a ver com religião. Já o misticismo, que costuma estar associado às expressões de dor e êxtase, está intimamente relacionado com sua obra. É o caso, por exemplo, da série "As Sete Últimas Palavras", feita a partir do trabalho The Seven Last Words of Christ, realizado pelo fotógrafo F. Holland Day em 1898.
Para conseguir imprimir o desenho de seu rosto pintado a óleo sobre o vidro em telas de linho belga, a pintora teve de pesquisar muito. Seu objetivo agora é realizar sua figura de corpo inteiro. Como as dificuldades técnicas são bem maiores nesse caso, pois ela diz só conseguir trabalhar em escala natural, ela substituirá o espelho por fotografias. "Só penso nisso", confessa.
A mostra "Verônica" funciona, assim, como uma espécie de transição, que permite à artista dar o passo seguinte. O mesmo ocorreu com ela em 1996, quando mostrou, em sua primeira individual na cidade, uma série de pinturas de pedaços de corpos humanos alinhados, formando uma grande linha. Para a artista, não há grande diferença entre pintar o outro e pintar a si mesma. "A relação com o modelo é muito forte, você se vê muito nele", explica. No início de sua carreira, Claudia dedicou-se principalmente à cerâmica, mas desde que se mudou para Nova York, há oito anos, ela começou a se aprofundar cada vez mais no campo da pintura.
Atualmente, a artista mora em São Paulo, mas continua mantendo um ateliê nos Estados Unidos. Curiosamente, sua cerâmica é extremamente abstrata, enquanto suas telas sempre partem do real. "Tenho necessidade do corpo, da figura", diz.

mockup