Uma orquestra de câmara composta e regida pelo maestro Diogo Pacheco, e as presenças dos solistas Arthur Moreira Lima (piano) e Cussy de Almeida (violino), são os primeiros esboços do concerto marcado para hoje à noite, no Guairão, em Curitiba. Sessão de gala musical que começa com Villa-Lobos, termina com Pixinguinha, depois de passar por Vivaldi e Mozart.
A razão do espetáculo é uma só: mostrar que clássicos não são somente os europeus; inúmeros compositores brasileiros se incluiriam perfeitamente na categoria. Tem mais - as orquestras da terra, os seus músicos deveriam tocar mais os autores nacionais.
O concerto da Orquestra Solo Brasileiro terá uma única apresentação em Curitiba, cumprindo um roteiro que começou com uma sessão histórica na Catedral Metropolitana de Brasília, esteve ontem no Teatro São Pedro, de Porto Alegre, e retoma as andanças no segundo semestre visitando Belo Horizonte, São Carlos (SP), Rio de Janeiro e São Paulo.
Vivaldi e Pixinguinha ‘‘Tínhamos que estimular o músico erudito brasileiro a tocar os brasileiros’’, disse William Nacked, idealizador do espetáculo. Através da Nacked & Associados, que possui uma divisão voltada a assuntos culturais, conseguiu o patrocínio da empresa de consultoria KPMG, e colocou em ação o projeto que teve início justamente após outro evento musical, realizado em São Paulo.
Estavam numa mesma roda William Nacked, Diogo Pacheco e Cussy de Almeida. O violinista discorreu sobre solo e a palavra ambivalente acabou misturando-se a outras opiniões e comentários. Surgia ali a idéia da orquestra e do repertório feito de clássicos e populares.
Como diz o regente, ‘‘Mozart e Vivaldi são clássicos que se tornaram populares no Brasil. O que fiz neste concerto foi reunir os clássicos populares com os populares clássicos’’. Nenhuma novidade para quem colocou Elizeth Cardoso cantando as ‘‘Bachianas’’ de Villa-Lobos no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1964.
Os puristas ouriçaram com o que viram, mas aquilo não era nada, perto do que aconteceria poucos depois. O entusiasmado maestro convidou cantores líricos para interpretarem nada mais, nada menos que Roberto Carlos. ‘‘E que Tudo Mais Vá para o Inferno’’ foi um dos números apresentados, para total desconcerto de quem via naquilo um sacrilégio ao Municipal.
Programa e comentários Os tempos passaram e hoje Pixinguinha é entronizado ao lado de Vivaldi e Mozart, além do conterrâneo Villa-Lobos. A noite abre com o Prelúdio das ‘‘Bachianas Brasileiras nº 4’’, de Villa; a seguir tem Vivaldi com ‘‘As Quatro Estações’’ (será executado o movimento ‘‘Inverno’’), Mozart com o ‘‘Concerto para piano nº 12 K.414’’ e encerra com ‘‘interpretações especiais’’ da obra de Pixinguinha, em homenagem ao seu centenário.
Diogo Pacheco vai exercitar, além da regência, seu lado de animador. Assim como nos concertos matinais, fará breve preleção de cada número, situando a obra e o compositor no seu tempo. ‘‘Não faço nenhum concerto em que não converse com a platéia’’, avisa.
Pelas ondas da Rádio Eldorado ele mantém um diálogo com seu público que dura 15 anos. ‘‘Concerto Noturno FM Eldorado’’ é um programa diário que dá ao maestro sinais do gosto do brasileiro pelos clássicos. Quando um sabonete era apresentado na televisão ao som de ‘‘Quatro Estações’’ choveram cartas na emissora pedindo a ‘‘música do Vinólia’’.
Num concerto ao ar livre em Presidente Prudente, interior de São Paulo, 15 mil pessoas ouviram com atenção o repertório que ele havia preparado. ‘‘Ouvindo gosta, essa gente precisa ter a oportunidade de ouvir’’, insiste Pacheco, que já foi para a televisão apresentar programas de música clássica e para ser garoto propaganda de automóvel.
Voltando ao casamento dos clássicos e populares, dentro do espírito musical desta noite, vale lembrar que outro grande maestro e compositor, Radamés Gnattali, realizou projeto semelhante há quase 20 anos. No Guairinha apresentou ‘‘Vivaldi & Pixinguinha’’, com a Camerata Carioca. Foi um momento único, o que vem a provar que o encontro de clássicos eruditos e populares, num mesmo palco, quando bem executado, se transforma em acontecimento inesquecível.
q Orquestra Solo Brasileiro - Regência: Diogo Pacheco. Solistas: Arthur Moreira Lima (piano) e Cussy de Almeida (violino). Hoje, às 21 horas, no Guairão. Ingressos: R$ 20,00.

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