Clássicos do cinema alemão e russo dos anos 20 são lançados em vídeo
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quinta-feira, 02 de dezembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 02 (AE) - O que seria dos cinéfilos sem a Continental? A empresa tem sido responsável por lançamentos preciosos em vídeo e DVD. Acrescenta agora mais duas pérolas à sua seleção. Se você quiser saber mais um pouco sobre as vanguardas alemã e russa dos anos 20, já tem programa neste fim de semana. De amanhã (03) a domingo, a Sala Multimídia Sony do Museu da Imagem e do Som (MIS) exibe um programa intitulado Imagens Sinfônicas. É formado por dois clássicos: "Berlim, Sinfonia da Metrópole", de Walter Ruttmann, de 1927, e "Um Homem com uma Câmera", de Dziga Vertov, de 1929. Os dois filmes estão sendo lançados simultaneamente em DVD e vídeo pela Continental. Eduardo Beu, responsável pelos lançamentos, promete descontos especiais para quem comprar as fitas de amanhã (03) a domingo, no MIS.
Pintor que trocou as telas pelo cinema, Ruttmann chegou ao documentário depois de fazer experimentos com película na série Opus. O primeiro desses filmes curtos está sendo lançado com "Berlim, Sinfonia da Metrópole". Ruttman só não é considerado o pai do documentário porque o título já pertence a Dziga Vertov. Era o pseudônimo de Denis Alkadievic Kaufman. Seu irmão Boris Kaufman foi grande diretor de fotografia, tendo trabalhado na França com Jean Vigo e, depois, nos Estados Unidos
com Elia Kazan e Sidney Lumet.
Dziga Vertov exerceu forte influência sobre Ruttman. "Berlim, Sinfonia da Metrópole" focaliza 24 horas da vida na capital alemã, captada com o rigor documentário daquilo que hoje se chama de cinema direto. Justamente o cinema direto, do qual Dziga Vertov foi o primeiro postulador."Um Homem com uma Câmera" não deixa de ser a sinfonia de Moscou, embora também tenha cenas rodadas em Odessa. O filme mostra um homem sobre um automóvel registrando o movimento de uma grande cidade com sua câmera. Em contraponto, o montador edita as imagens e elas chegam a ser vistas pelo público numa sessão normal de cinema.
Lembrado hoje como teórico e experimentador, Dziga Vertov talvez tenha sido a personalidade mais curiosa dos primórdios do cinema russo. O próprio Eisenstein foi influenciado por suas teorias de montagem, embora a principal fonte de influência sobre o criador de "O Encouraçado Potemkin" seja outro precursor, Leon Kulechov. Dziga Vertov exerceu forte influência sobre todas as escolas de documentaristas com suas idéias sobre o kinoglaz ou cinema-olho, por meio das quais declarava guerra à teatralidade dos filmes.
A vida como ela é - Ele propunha que o olho da câmera captasse a vida como ela é, em oposição a tudo o que se aproxima da mise-en-scne: estúdios, roteiros, atores, maquiagem, cenografia e iluminação. Defendia um cinema puro, que, para ele, deveria traduzir-se no gênero documentário, por meio da montagem. Com paralelismos e repetições rítmicas vertiginosas, correspondentes, muitas vezes, às repetições acústicas da poesia
criava uma montagem que tinha a complexidade de uma partitura.
Ele deixou, por sinal, instruções precisas sobre o que seria a partitura ideal de "Um Homem com uma Câmera". Com base nelas, o compositor Remo Cerchi Usai compôs a música que acompanha essa versão, lançada nas Jornadas de Cinema Mudo de Pordenone, na Itália, o mais importante evento em todo o mundo ligado ao estudo e divulgação de filmes anteriores ao advento do som.
"Um Homem com uma Câmera" é considerado uma espécie de súmula de suas idéias. E é também um clássico polêmico, pois o amor de Dziga Vertov à montagem acabou por entrar em choque com suas teorias sobre a verdade do cinema. Se ele rejeitava qualquer artifício durante o processo de filmagem, tendo antecipado até a tecnologia para gravação do som direto, não se furtava a empregar todo tipo de artifício na montagem de seus filmes, essa montagem que faz de "Um Homem com uma Câmera" um filme ainda prodigioso, decorridos 70 anos de sua realização. Você vai perceber facilmente que muita coisa que hoje é vendida como moderna já fazia parte do projeto de Dziga Vertov nos anos 20.
Numa série de 23 reportagens sob o título geral Kino Pravda (Cinema Verdade), ele propôs uma verdadeira interpretação artística e jornalística da Rússia dos primórdios do comunismo, antecipando o que o cubano Santiago Alvarez faria, depois, nos anos 60, em seu país. Walter Ruttmann assimilou as idéias de Dziga Vertov para narrar um dia na vida de Berlim, desde o amanhecer até a noite. Mas ele também se distanciou do seu mestre na montagem, criando um ritmo paralelo à agitação urbana segundo as horas do dia.
De forma muito ousada, utilizou a divisão do fotograma em imagens rodadas em separado para dar uma idéia de simultaneidade. Realista e artificioso, é um raro e grande filme. Não por acaso, costuma ser votado como um dos primeiros entre os melhores documentários de todos os tempos. Serviço - "Berlim, Sinfonia da Metrópole", de Walter Ruttmann. Alemanha, 1927, 62 min. "Um Homem com uma Câmera", de Dziga Vertov, 1929, 66 min. DVD e vídeo.Ciclo na Sala Sony do MIS, de amanhã (03) a domingo, às 18 h (o primeiro) e 20 h (o outro). As fitas e discos, ao preço médio de R$ 30, estarão à venda na Blockbuster, Fnac, Saraiva e Locadora 2001


