Clássicos de bolso
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de maio de 2000
Nelson Sato De Londrina 
A coleção de bolso da editora gaúcha L&PM segue em frente. Três novos títulos chegam aos leitores tentando consolidar um formato de livro ainda subestimado no País.
Macbeth, na tradução de Beatriz Viégas-Faria, é o destaque do pacote. É a sexta peça de Shakespeare contemplada na coleção, cujo catálogo de mais de 200 clássicos da literatura brasileira e universal publicados em três anos já lançou Hamlet, Romeu e Julieta, Rei Lear, Otelo e A Megera Domada todos de autoria do bardo de Stratfor-upon-Avon.
Isso sem contar o curioso volume Shakespeare de A a Z, reunindo as frases mais famosas e outras nem tanto garimpadas de sua obra. Em Macbeth (1606), a sede de poder revela-se numa trama soturna e sangrenta que trata da tirania e de sua queda. Na peça, o guerreiro Macbeth é convencido por sua mulher de que o assassinato seria um caminho mais fácil para alcançar o trono.
Macbeth mata o rei Duncan e toma o mando da corte. Para manter-se no Palácio, o usurpador mergulha num mar de corrupção ordenando execuções em série, até que uma rebelião passa por cima dele e de lady Macbeth, que instigara a ambição do marido. Como é de praxe em Shakespeare, a história termina num banho de sangue aproximando-se do fatalismo inexorável das tragédias gregas.
Citada em qualquer verbete sobre o autor, Macbeth foi adaptada para o cinema por diretores como Orson Welles e Akira Kurozawa e ganhou montagens teatrais no Brasil pelas mãos dos não menos respeitáveis Antunes Filho e Ulisses Cruz. Em livro, uma antiga tradução de Manuel Bandeira é a que mais conquistou leitores até hoje, sendo periodicamente reeditada pela Brasiliense.
Além de Shakespeare, outro autor clássico presente na coleção é o russo Nicolai Gogol (1809-1852), brindado com dois volumes de contos: um trazendo O Nariz e Diário de um Louco e outro reunindo O Capote e O Retrato. Considerado um dos fundadores da moderna literatura russa, Gogol renovou a prosa de seu país introduzindo o realismo fantástico em histórias que se tornaram obras-primas do conto universal.
Mal adaptado ao mundo, passou os últimos dez anos de sua vida como um andarilho solitário, torturado por visões místicas. Morreu deprê, de inanição, dias depois de atear fogo no segundo volume de seu romance Almas Mortas. Das obras agora publicadas, já se falou que O Nariz teria antecipado Kafka pela atmosfera e linguagem, mas foi O Capote que ajudou a garantir posteridade ao escritor.
A novela conta a história de um modesto funcionário que se submete a toda sorte de privações para poder comprar um capote para o inverno. Quando consegue, é roubado, e sofre a partir daí de uma melancolia atroz que o faz adoecer até a morte e ressurgir depois como fantasma para cobrar a injustiça de que foi vítima.
Depois de publicado, o conto deixou sequelas. Escritores russos do século XIX costumavam dizer: Todos nós descendemos do Capote.


