A luta entre os pretendentes a maior bilheteria de fim de ano promete rounds eletrizantes. Com ‘‘O Fantasma’’ expulso do ringue por nocaute técnico - o filme simplesmente não emplacou, ou melhor, empacou nas bilheterias brasileiras -, outros pesos-pesados já estão a postos. Enquanto Schwarzenegger ainda tem fôlego para ir levando seu ‘‘Herói de Brinquedo’’, embora já em ritmo cadenciado, surgem a partir de hoje em centenas de salas espalhadas pelo País (confira na programação de cinema na página 3) duas atrações respeitáveis: um Stallone e um Disney, vale dizer, ação e fantasia sem limites para a imaginação do agora tecnológico espírito natalino. E mais novidades em escala nacional estão previstas a partir do dia 25.
Grife por grife, a do mitológico papa da animação mundial tem mais charme. No confronto direto, isso pode ser comprovado de duas maneiras: num exercício de memória, recordando as felizes imagens de ‘‘A Guerra dos Dálmatas’’, realizado há 35 anos quando Walt Disney ainda estava vivo e hoje, testemunhando de que é capaz o prodígio da reciclagem hollywoodiana, através de ‘‘10l Dálmatas - O Filme’’. Não é evidentemente uma refilmagem, tampouco uma novidade. Digamos que se trata outra vez de fazer mais ou menos novo aquilo que estava ficando mais ou menos velho, de acordo com a variação de gostos e preferências do mercado consumidor mundial. E tudo se torna bem menos complicado (e mais econômico) quando as receitas são todas caseiras.
Sequestro canino - Para as novas gerações que não conhecem o original nem por ouvir dizer, aqui vai. Em Londres, um simpaticíssimo casal de bem nascidos dálmatas, Pongo e Perdita, entra em pânico compatilhado por seus ‘‘donos de estimação’’ quando sua ninhada inteira é roubada. Por trás do ato hediondo está a terrível megera Malvina Cruela De Vil, que tem um plano ignóbil. Contra ela e seus desastrados capangas vai se rebelar boa parte da comunidade canina da cidade, criando comédia, ação, fantasia e aventura em doses capazes de entreter por hora e meia crianças e adultos. Bem, este é o clássico de 1961, batizado entre nós como ‘‘A Guerra dos Dálmatas’’ e narrado a partir de pranchetas de onde saíram alguns dos mais geniais traços da história do cinema de animação. Mas o que mudou nesta versão que entra hoje nas salas brasileiras?
O roteirista e produtor John Hughes, cineasta de enorme sucesso em função de seus filmes-família (os dois ‘‘Esqueceram de Mim’’, ‘‘Antes Só que Mal Acompanhado’’), dá uma pista quando diz que ‘‘foi muito excitante ver uma história clássica transformada num filme de carne e osso. Fomos capazes de fazer coisas que não podiam ser feitas com animação. A animação possui uma certa magia, mas existe magia também em contar esta história com atores de verdade’’. Basicamente, então, conclui-se que em princípio houve uma troca de realismos. Um, primário, aprisionado pelo simplismo psicológico de personagens desenhados e pelos naturais limites do grafismo da época, ainda que avançado em concepção; o outro, este referido nas entrelinhas por Hughes e liberto em infindáveis possibilidades através de atores de verdade, humanos e animais.
A ‘‘mãozinha’’ do computador Mas nem só de carne e osso vive ‘‘10l Dálmatas’’. Além de 12 cães adultos e dos 200 filhotes treinados por uma dúzia de profissionais de uma empresa londrina, o elenco canino do filme obteve substancial reforço. Entrou em cena a mais recente vedete da animação (e aqui começa a se complicar a teoria ‘‘realista’’ de Hughes), os animais animatronic, para serem utilizados quando houvesse cenas perigosas ou difíceis para animais de verdade. Quem viu ‘‘Babe’’ tem uma idéia de como a coisa funciona. Outra participação essencial veio da Industrial Light and Magic, que reproduz animais e multiplica filhotes aqui e ali para dar a ilusão de centenas de dálmatas. Quem viu ‘‘Jurassic Park’’ e ‘‘Jumanji’’ também já sabe como a coisa funciona. Ou seja, realidade apenas virtual...
De resto, esta combinação entre gente viva e imagens geradas por computadores tem notáveis ancestrais dentro e fora da casa Disney. O ratinho Jerry já dançou com Gene Kelly, e Mary Poppins se viu cercada por diversos bichos animados. Portanto, novidade mesmo é encontrar em ‘‘101 Dálmatas’’ feições de atores ilustres emprestando movimentos naturais a personagens ‘‘humanos’’ da primeira versão.
Vilã de respeito O que leva uma atriz consagrada como Glenn Close a aceitar o papel de Malvina Cruela De Vil, verdadeira usina do mal, somente comparável em crueldade à Alex Forrest vivida pela própria em ‘‘Atração Fatal’’ ? Segundo ela, ‘‘Cruela está no tênue limite entre ser verdadeiramente aterrorizante e ser também divertida’’. O fato é que, se por um lado os cachorrinhos reais ou virtuais vão encantar a garotada, Glenn Close em nenhum momento se descuida e deixa de ser admirável. Resultado: ‘‘101 Dálmatas’’ tem sua maior credencial na participação da atriz.

mockup