Clássico reciclado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de setembro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
Reprodução101 Dálmatas: comédia, ação, fantasia e aventura agora em vídeo101 Dálmatas - O Filme não é evidentemente uma refilmagem, nem tampouco uma novidade. Digamos que se trata outra vez de fazer mais ou menos novo aquilo que estava ficando mais ou menos velho, de acordo com a variação de gostos e preferências do mercado consumidor mundial. E tudo se torna bem menos complicado (e mais econômico) quando as receitas são todas caseiras.
Para as novas gerações que não conhecem nem por ouvir dizer o original realizado há 35 anos, quando Walt Disney ainda era vivo, aqui vai. Em Londres, um simpaticíssimo casal de bem nascidos dálmatas, Pongo e Perdita, entra em pânico compartilhado pelos donos de estimação quando sua ninhada inteira é roubada. Por trás do ato hediondo está a terrível megera Cruela De Vil, que tem um plano ignóbil: fazer um belo, longo e sedoso casaco com a pele pintada dos filhotes. Contra ela e seus desastrados capangas vai se rebelar boa parte da comunidade animal da cidade, criando comédia, ação, fantasia e aventura em doses capazes de entreter por hora e meia crianças e adultos. Bem, este é o clássico de 1961, batizado entre nós como A Guerra dos Dálmatas e narrado a partir de pranchetas de onde saíram alguns dos mais geniais traços da história do moderno cinema de animação. Mas o que mudou nesta versão que acaba de chegar às locadoras depois de bem-sucedida carreira nas salas brasileiras ?
O roteirista e produtor John Hughes, cineasta de enorme sucesso na trilha dos filmes-família (os dois Esqueceram de Mim, Antes Só que Mal Acompanhado), dá uma pista quando diz que foi muito excitante ver uma história clássica transformada num filme de carne e osso. Fomos capazes de fazer coisas que não podiam ser feitas com animação. A animação possui uma certa magia, mas existe magia também em contar esta história com atores de verdade. Basicamente então conclui-se que em princípio houve uma troca de realismos. Um, primário, aprisionado pelo simplismo psicológico de personagens desenhados e pelos naturais limites do grafismo da época, ainda que avançado em concepção; o outro, este referido nas entrelinhas por Hughes e liberto em infindáveis possibilidades através de atores de verdade, humanos e animais.
Mãozinha do computadorMas nem só de carne e osso vive 10l Dálmatas. Além de 12 cães adultos e dos 200 filhotes treinados por uma dúzia de profissionais de uma empresa londrina, o elenco canino do filme obteve substancial reforço. Entrou em cena a mais recente vedete da animação (e aqui começa a se complicar a teoria realista de Hughes), os animais animatronic, para serem utilizados quando houvesse cenas perigosas ou difíceis para animais de verdade. Quem viu Babe tem uma idéia de como a coisa funciona. Outra participação essencial veio da Industrial Light and Magic, que reproduz animais e multiplica filhotes aqui e ali para dar a ilusão de centenas de dálmatas. Quem viu os dois Jurassic Park e Jumanji também já sabe como a coisa funciona. Ou seja, realidade apenas virtual...
De resto, esta combinação entre gente viva e imagens geradas por computadores tem notáveis ancestrais dentro e fora da casa Disney. O ratinho Jerry já dançou com Gene Kelly, e Mary Poppins se viu cercada por diversos bichos animados. Portanto, novidade mesmo é encontrar em 101 Dálmatas feições de atores ilustres emprestando movimentos naturais a personagens humanos da primeira versão, como Glenn Close, Joan Plowrighte e Jeff Daniels.
Vilã de respeitoO que leva uma atriz consagrada como Glenn Close a aceitar o papel de Cruela De Vil, verdadeira usina do mal, somente comparável em ignomínia à Alex Forrest vivida pela própria em Atração Fatal? Segundo ela, Cruela está no tênue limite entre ser verdadeiramente aterrorizante e ser também divertida. O fato é que, se por um lado os cachorrinhos reais ou virtuais encantam a garotada, Glenn Close em nenhum momento se descuida e deixa de ser admirável. Resultado: 101 Dálmatas tem sua maior credencial na participação da atriz.


