A imprensa britânica da época tentou inflamar uma rivalidade entre os Beatles e os Rolling Stones. Mas, em meados dos anos 60, o verdadeiro confronto estético foi transatlântico. A gangue de Mick Jagger estava excluída da guerra musical que opunha os fab four do lado inglês e os Beach Boys do lado americano numa disputa implacável para ver qual gravava o álbum mais genial.
  Um dos pilares da competição foi o álbum ‘‘Pet Sounds’’, obra-prima pop que os Beach Boys lançaram em maio de 1966, inspirando os rivais na gravação do menos fantástico ‘‘Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band’’, que chegaria às lojas no ano seguinte. ‘‘Pet Sounds’’ está celebrando 40 anos este mês. Um tributo será lançado brevemente pelo selo Houston Party para festejar a efeméride.
  A coletânea comemorativa vai trazer regravações das 13 canções respeitando a ordem das faixas do registro original. Entre os nomes escalados para prestar a homenagem figuram Wedding Present, Architecture in Helsinki, Mazarin, Oldhan Brothers e Daniel Johnston. ‘‘Pet Sounds’’ foi eleito o melhor álbum de 66 pelo New Musical Express, tablóide britânico que volta e meia inclui o clássico nas listas periódicas de dez melhores discos de todos os tempos.
  O disco fez mais sucesso na Inglaterra que nos Estados Unidos, sendo considerado um fracasso de vendas pela gravadora Capitol. Brian Wilson, o cérebro dos Beach Boys, trabalhou meticulosamente cada detalhe dos arranjos no estúdio. As composições fugiam do padrão adotado nos discos anteriores, que mesclavam a fórmula básica do rock’n’roll com harmonias vocais do doo-wop para falar de surfe, carros e garotas.
  A banda experimentava uma guinada anti-comercial. Brian Wilson, o responsável pelas mudanças, teria sido estimulado pela audição do álbum ‘‘Rubber Soul’’, lançado pelos Beatles no ano anterior. ‘‘Foi um desafio definitivo para mim’’ – escreveu ele, anos depois, no encarte da reedição em CD de ‘‘Pet Sounds’’. Para suplantar os rivais, enfiou-se no estúdio convidando um músico para substituí-lo nos shows da banda.
  O novo álbum assombrou todo o meio musical que passou a reverenciá-lo como gênio. As gravações do disco incluíram efeitos inventivos com vozes, sons de animais, trens e percussão exótica (garrafas vazias de Coca-Cola e latas de sorvete). Brian combinava intrincadas harmonias vocais com escalas inusitadas, teclados convencionais, guitarras melódicas, orquestração, sinos, buzinas, órgãos, flautas, theremin, cravos e letras que abordavam angústias existenciais.
  Uma das músicas, ‘‘You Still Believe In Me’’, deslumbrou Paul McCartney a ponto dele declarar que era ‘‘a canção que gostaria de ter escrito’’. O parceiro de Lennon empolgou-se também com ‘‘God Only Knows’’, chegando a perguntar para o produtor George Martin ‘‘se era possível fazer algo tão bom’’. ‘‘Não. Podemos fazer melhor’’ – teria sido a resposta. No ano seguinte, era a vez dos Beatles revidarem com ‘‘Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band’’ acirrando a guerra transatlântica.

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