São Paulo, 12 (AE) - Quando garoto, Bernd Schultheis só tinha certeza de uma coisa: queria ser músico. Até os 18 anos, era consumido pela dúvida: não sabia se queria ser compositor ou instrumentista. Virou compositor. Aos 35 anos, ele está em São Paulo, trazido pelo Instituto Goethe e pela Mostra Internacional de Cinema. Veio para a abertura da 23.ª edição do evento, que começa na quarta à noite, às 21 horas, na Sala São Paulo (Estação Júlio Prestes). A sessão é privada para convidados e portadores de cartões da mostra. Na quinta-feira começa a maratona de 150 filmes em três salas da cidade. A partir de sexta, em dez salas, incluindo uma em Guarulhos.
Schultheis veio para acompanhar a exibição de Fausto, de Friedrich Wilhelm Murnau, o filme escolhido para inaugurar a 23ª Mostra. Fausto será exibido na versão restaurada pela Cinemateca de Madri. Schultheis compôs uma nova partitura para o clássico de Murnau, que será executada pela Sinfonia Cultura, a orquestra sinfônica da TV Cultura. Será estréia mundial da partitura, mas São Paulo não será a única capital a ouvi-la em primeira audição. Também nesta quarta, num evento promovido pelo Instituto Goethe nas Filipinas, a partitura será tocada em Manila, acompanhando a exibição de outra cópia de Fausto.
Desde que se profissionalizou como compositor, Schultheis se especializou em compor para clássicos silenciosos. Antes de Fausto, compôs a nova música de Les Deux Timides, do francês René Clair. No caso de Fausto, esqueceu a partitura original, composta por Giuseppe Becce, em 1926. Não há problema de direito autoral, ele conta, porque no período silencioso cada cinema era livre para acompanhar musicalmente os filmes do jeito que quisesse.
Admirador de Gy”rgy Ligeti, cuja música Stanley Kubrick utilizou em "2001, Uma Odisséia no Espaço" e "De Olhos bem Fechados", Schultheis se define como um autor contemporâneo. A música de Fausto, explica, é atonal, mas não dodecafônica. Ou seja: não segue o sistema de composição de Arnold Sch”nberg, baseado no livre emprego dos 12 semitons da escala temperada. E foi feita para grande orquestra, para as cenas de abertura, com a visão de Murnau do inferno, e do encerramento, mas não para o miolo da narrativa. Esse miolo é pura música de câmara, já que o próprio filme, como boa parte da obra expressionista de Murnau, se inscreve na corrente chamada de kammerspiel (cinema de câmara).
O compositor diz que criou temas para Fausto, Mefisto e para a personagem feminina, Gretchen. Cada um tem o seu tema atonal, mas eles se harmonizam por meio de combinações sonoras para música de câmara e sinfônica. "A trilha percorre um longo caminho musical", diz Schultheis. Mistura linhas e tendências, às vezes escolas. "Existem influências, mas elas são diluídas; tento fazer um trabalho pessoal; o que coloco na música é a minha sensibilidade."
Como todo compositor para cinema, ele tem suas preferências no setor. Admira a associação de Bernard Herrmann com Alfred Hitchcock e a de Nino Rota com Federico Fellini, mas as trilhas que mais lhe falam ao coração são as de Ennio Morricone para os filmes de Sergio Leone: Era uma Vez na América e Três Homens em Conflito. Apesar dessa admiração irrestrita por Morricone, destaca também dois americanos cujo trabalho é impecável: Alex North e Jerry Goldsmith. "A música de North para 2001, que Kubrick não utilizou, é brilhante", diz.

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