Clarinetas e vozes disputam o Prêmio Eldorado
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segunda-feira, 23 de agosto de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 24 (AE) - Dois clarinetistas e um grupo vocal disputaram ontem a terceira eliminatória do 10.º Prêmio Eldorado de Música, provando que, ao menos na área erudita, há razões suficientes para acreditar no futuro. O primeiro candidato, Ovanir Buosi, de 23 anos, clarinetista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, entrou um pouco nervoso no palco para interpretar o allegro do "Concerto para Clarineta" e "Orquestra Opus 5", de Bernhard Crussel (1775-1838), mas chegou confiante à sonata de Tcherepnin (1899-1977), muito aplaudida pelo público.
O clarinetista Alexandre Fracalanza Travassos fez o circuito inverso, começando com Bernstein (1819-1990) e voltando à época de Carl Maria von Weber (1786-1826). A escolha do compositor de "West Side Story" foi acertada. Bernstein, nessa pouco lembrada sonata para clarineta e piano, antecipa algumas soluções de suas trilhas sonoras mais conhecidas (especialmente "Sindicato de Ladrões") e reafirma a linguagem de sua sinfonia de estréia, "Jeremiah" (1941), ainda marcada pela influência de Copland.
O conjunto curitibano AmericAntiga, dirigido pelo tenor Ricardo Bernardes, preparou um repertório para quatro e cinco vozes a capela, conquistando a platéia tanto com obras polifônicas da Renascença ibérica como cantando excertos de uma missa mozartiana e outra missa brasileira, no caso a de "Réquiem", composta por Henrique Oswald (1852-1931).
O primeiro candidato, Ovanir Buosi, participou há quatro anos do Prêmio Eldorado, mas não chegou às semifinais. Buosi, agora mais maduro, não parece refratário às invenções contemporâneas, mas seu Brahms soa melhor do que Santoro, talvez pela identificação do clarinetista com o caráter conflituoso da sonata de Brahms, mais romântica e menos intelectual do que a Fantasia do compositor brasileiro.
Buosi já tocou essa peça de Santoro em outros concursos. Há uma certa ironia (o uso do trinado, por exemplo) que se dilui numa interpretação séria. Em "Crussel", a opção pela limpeza formal foi respeitada por Buosi, que evitou o ataque virtuosístico - até mesmo porque parecia suficientemente nervoso para tanto. De qualquer modo, é um talento da nova geração de clarinetistas, atualmente ligado ao Quinteto de Sopros de Curitiba, que lançou há um ano um disco com obras de Villa-Lobos
Lacerda, Gnatalli e Júlio Medaglia.
O segundo candidato, Alexandre Fracalanza Travassos, teve aulas com alguns dos melhores clarinetistas, entre eles o italiano Francesco Belli e o brasileiro Sérgio Burgani. Sua interpretação da sonatina de Ernest Mahle para clarineta e piano foi uma bela homenagem aos 70 anos do compositor, comprovando a facilidade de trânsito de Travassos entre universos tão distintos como os de Bernstein e o do autor brasileiro.
Uma grande revelação da terceira eliminatória foi o grupo curitibano AmericAntiga, que tem quatro anos e vem desenvolvendo um trabalho de pesquisa e restauração do repertório brasileiro e hispano-americano do século 18. Uma das descobertas mais recentes do conjunto, Pueri Haebreorum, de um anônimo de Piranga, Minas Gerais, merece a atenção dos estudiosos e está registrada no disco recém-lançado do AmericAntiga.
Formado por Ricardo Bernardes, Kismara Pessati, Maynara Cuin, Márcia Kayses e Roosewelt Borges, o AmericAntiga tanmbém surpreendeu no repertório mais conhecido, cantando o Kyrie e Glória da Missa Brevis em Dó maior (K 115) de Mozart, em que se destacam as vozes femininas.


