Clarice Lispector, quem diria, é como uma droga - vicia. Foi a conclusão a que chegou Denise Tavares Gonçalves. A mais complexa, densa e sutil das grandes escritoras brasileiras virou uma obsessão para ela desde a leitura de ‘‘A Paixão Segundo GH’’. Denise chegou a realizar um curta baseado em Clarice, ‘‘Ruído de Passos’’, que participou de vários festivais em todo o mundo, desde o de Clermond-Ferrand, na França, até os de Toronto e São Francisco, passando por Gramado, onde Renée Gumiel recebeu o prêmio de melhor atriz. Ela está agora em plena captação para o documentário ‘‘Clarice’’.
Rodado em película e com duas versões - uma para TV, de 50 minutos, e outra para cinema, mais longa -, o documentário, orçado em R$ 1,2 milhão, pretende abordar a vida e obra da escritora, usando uma para iluminar a outra. Denise pretende se valer de várias linguagens, mesclando depoimentos e dramatizações. Além das participações de Nélida Piñon, Marisa Colasanti, Affonso Romano de Santanna, Benedito Nunes, Nádia Battela Gotlib, biógrafa de Clarice, e Caetano Veloso, que autorizou a veiculação de sua música dedicada à escritora, o filme pretende recriar diversos episódios conhecidos do círculo que cultiva a autora.
A descoberta de Monteiro Lobato, o encontro com a literatura de Katherine Mansfield, o incêndio do apartamento de Clarice e a sua mania de escrever fumando muito e exagerando no café, tudo isso vai estar no documentário com a visualização de trechos célebres da sua literatura - o encontro de GH com a barata, a menina que bebe o mar e a galinha do conto de mesmo nome. O filme mostrará ainda a cartomante de Clarice, a empregada, seu filho, de forma a deixar claro que a obra da autora é indesligável de sua vida, uma interferindo e explicando a outra.
Denise explica como e por que Clarice é como uma droga que vicia. Desde que começou a ler seus livros, nunca mais se interessou por outra literatura. Lê e relê Clarice obsessivamente. Sabe que não é um fenômeno isolado, só dela. Acompanhando as sucessivas exibições de ‘‘Ruído de Passos’’ em mostras e festivais, descobriu que há uma teia de admiradores da escritora que a consideram simplesmente o máximo. E é mesmo, mas Denise espera que o filme a ajude a exorcizar esse fantasma.
Ela fez o curta na produtora Moema, de Jan Koudela. Clarice será feito na Raiz, a produtora de Assunção Hernandez, para quem esse novo projeto representa um retorno a Clarice - afinal, ele produziu o belo ‘‘A Hora da Estrela’’, de Suzana Amaral, que valeu a Marcélia Cartaxo o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim por sua magnífica criação no filme adaptado do romance homônimo da escritora. Denise está colocando toda a sua energia nesse filme, mas admite que o processo de captação está difícil.
Por enquanto, a diretora dispõe só da verba que recebeu do BNDES no ano passado - os R$ 147 mil já viraram R$ 170 mil, pouco menos de um sexto do orçamento total, mas Denise se dispõe a filmar por menos, pela urgência que tem de tratar do tema. Clarice está aprovado no PIC, o Programa de Integração Cinema e TV, da Cultura, e tem apoio do fundo Ibermedia, que financiou a pesquisa e confecção do roteiro.
Interessados podem entrar em contato com Denise pelo telefone (11) 3672-5812. Ela diz que todas as informações sobre o projeto estão disponíveis no site www.pccorp.com.br/clarice.

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