A enigmática Clarice Lispector (1925-1977), quem diria, virou fenômeno pop na internet. Frases de sua autoria congestionam o Twitter e o Facebook conferindo à escritora uma popularidade impensável na era pré-redes sociais.
Nascida em 10 de dezembro e morta em 9 de dezembro, ela será lembrada hoje pelo canal Globo News, que vai lhe dedicar uma edição especial do programa ''Espaço Aberto - Literatura''. Dona de obra única na literatura brasileira, a autora de ''A Paixão segundo G.H'' não apenas domina a web com suas citações como voltou a ser bastante comentada no mundo literário após o lançamento da biografia ''Clarice'' publicada há dois anos pelo norte-americano Benjamin Moser.
Exaustivamente estudada nas universidades, a obra da escritora provocou um impacto sem precedentes na ficção nacional em meados do século 20. Não havia nada parecido com aquela voz que buscava comunicar as sensações e traduzir os estados da alma sem recorrer ao formato da narrativa clássica. Seus romances não contavam uma história, mas mergulhavam os leitores numa espiral de devaneios introspectivos.
O ato de subir uma escada com uma sacola de compras, por exemplo, inspirava uma descrição interminável dos desertos interiores. ''Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretende pôr em palavras um mundo ininteligível e impalpável. Sobretudo, uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal'', salientou certa vez.
No romance ''A Hora da Estrela'', escreveu: ''Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem a bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta''.
O especial vai ao ar às 21h30.

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