Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Demorou, mas Alcione finalmente resolveu fazer um CD tributo a Clara Nunes. Havia de ser ela por vários motivos. Um deles, por razões afetivas – era amicíssima da homenageada. O principal: independente da atual fragilidade do repertório, da velha guarda das sambistas em evidência (sim, ela ainda pode ser assim considerada) somente Alcione tem voz e estilo suficientes para dar vida nova a velhos sucessos.
E daí que ‘‘Claridade’’ (Universal) congrega 14 canções emplacadas nas rádios dos quatro costados do Brasil. A maioria ainda permanece na ponta da língua de muita gente que ouviu perplexa, no dia 2 de abril de 1983, a notícia da morte estúpida de Clara Nunes. O legado musical de Clara é composto por 16 discos.
Para um CD tributo, ‘‘Claridade’’ cumpre direitinho sua missão. Isto é, mexer com o bolso e a memória de saudosos fãs e, de quebra, ajudar a carreira de quem está homenageando. O disco resume, realmente, a carreira da ‘‘mineira guerreira’’ mas não permite uma visibilidade mais abrangente da importância artística de Clara Nunes.
É certo que, por álbum, Clara conseguia colocar pelo menos duas faixas nas paradas de sucesso. Mas em seus discos havia também a preocupação com a escolha de bons compositores. A lista é grande. Lembremos alguns: Wilson Moreira, Nei Lopes, Candeia, Monarco, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho, Mauro Duarte, João Bosco, Aldir Blanc, Dorival Caymmi, Chico Buarque, João Nogueira e, claro, Paulo César Pinheiro.
De muitos desses, Alcione – pelo menos atualmente – ignora as obras; prefere algo mais ‘‘consistente’’ comercialmente falando. E olha que Alcione é uma grandesíssima intérprete, uma estilista. Sua voz, inflexão e divisão rítmica são inconfudíveis. Porém, esses predicados não impedem de ela ser colocada – às vezes por merecimento – na galeria da cafonália.
Ou seja, se de um lado Alcione tem o que Clara tinha pouco – voz –; do outro Clara tinha em excesso o que Alcione nem ‘‘tchuns’’: preocupação com a escolha das músicas. ‘‘Claridade’’ é, acima de qualquer coisa, um bom momento para se ouvir Alcione cantando bons sambas.
Um bom exemplo é a recriação, agora bastante carregada nos sopros, de ‘‘Ê Baiana’’ ou mesmo ‘‘Tristeza Pé no Chão’’. A cantora maranhense – e mangueirense – também dá um show de categoria no samba exaltação ‘‘Portela na Avenida’’. ‘‘A Flor da Pele’’ (uma das raras composições feita por Clara) parece ter sido feita de encomenda a Alcione – foi recriada com um quê de cafonice.
Porém, a melhor faixa fica por conta mesmo de ‘‘Canto das Três Raças’’. Claro, o disco é dela e ela escolhe o que cantar. Porém, faltaram algumas canções também expressivas do cancioneiro de Clara Nunes como ‘‘Ijexᒒ (Edil Pacheco), ‘‘Meu Sapato já Furou’’ (Elton Medeiros-Mauro Duarte), ‘‘Banho de Manjericão’’ (João Nogueira-Paulo César Pinheiro), ‘‘Basta Um Dia’’ (Chico Buarque) ou mesmo ‘‘Na Linha do Mar’’ e ‘‘Coração Leviano’’ (ambas de Paulinho da Viola que, aliás, Alcione não grava nem morta).
‘‘Claridade’’ é um disco feito para refrescar a memória do povão. Tem seu peso, seu charme e seu suingue. Mas faltou um pouco de macumba. Sim, não podemos esquecer que os sambas afros eram uma constante no repertório da filha de Ogum e Iansã, ou melhor, Clara Nunes. Mesmo assim, a homenagem de Alcione está de bom tamanho.

mockup