'Clara dos Anjos' é adaptada para HQ
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de novembro de 2011
Roberto Kaz <br> Folhapress 
Em uma das cenas iniciais de ''Clara dos Anjos'', adaptação para quadrinhos do romance homônimo de Lima Barreto, o personagem Cassi Jones - um caricato sedutor carioca - é flagrado na cama alheia, prestes a deflorar uma jovem. Munido de uma pistola, o pai da moça esbraveja: ''Indecente! Eu mato... Dou-lhe um tiro na boca!''.
''A frase não estava no romance original. Mas escolhi usá-la porque soa gostosa'', disse, por telefone, o roteirista Wander Antunes, 45 anos. ''Pensei: 'Agora esse livro é meu. E tudo o que o Lima Barreto narra em terceira pessoa vai ser encenado'.''
Antunes assina com o ilustrador Marcelo Lelis, 44, a adaptação daquele que foi o último romance de Barreto, publicado após sua morte. Recriado em aquarela sobre nanquim, ''Clara dos Anjos'' será lançado na quinta-feira pela Quadrinhos na Cia. O posfácio é de Lilia Schwarcz.
Barreto ainda escrevia ''Clara dos Anjos'' quando morreu, em 1922, de infarto. Deixado incompleto, o livro retratava o subúrbio carioca onde morava, ao qual ele se referia, de forma ácida, como ''o refúgio dos infelizes''.
Na trama, Clara é uma jovem mulata engravidada pelo conquistador Cassi Jones. Desassistida e maltratada por causa de sua cor (''A culpa foi sua, negrinha!'', condena a mãe de Jones), chega ao fim da história ''grávida, pobre e preta'', conforme escreve Schwarcz.
''O Lima Barreto era um crítico da elite'', diz o desenhista Lelis, que pesquisou a iconografia do Rio nos anos 20 para reproduzir a cidade com fidelidade.
Antunes concorda: ''Ele tinha raiva - e eu gosto de quem tem raiva''. Após um ano e meio debruçado sobre o romance, conclui: ''Esse tipo de tragédia ainda não acabou. O subúrbio do Rio continua a ser habitado por pessoas invisíveis''.
Serviço:
Clara dos anjos
Autores - Marcelo Lelis e Wander Antunes (adaptado de Lima Barreto)
Editora - Quadrinhos na Cia.
Quanto - R$ 42 (111 págs.)


