Clara Crocodilo em versão digital
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de outubro de 1998
Zeca Corrêa Leite 
Depois do bolachão, o biscoito. Em 1980 Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé, foi lançado em LP em meio ao estardalhaço da imprensa. Quase 20 anos depois Clara prepara-se para voltar em som digital, com gravação ao vivo e nova instrumentação. O registro deverá ocorrer entre janeiro e fevereiro de 1999, num teatro paulista.
Esse é o projeto no qual Barnabé está mergulhado até o pescoço. Ele abriu espaço em sua agenda para vir a Curitiba, na semana passada, prestigiar o Grupo Armazém que está em cartaz no Guairinha com a peça Esperando Godot. Por sinal, a trilha sonora é sua. Gostei do que fiz, acho que funcionou bem. Ficou uma coisa integrada. Aproveitando a estada, promoveu uma sessão de autógrafos de seu disco Gigante Negão, na loja Temptation, no entardecer de sexta-feira.
O compositor tem especial carinho pelo disco de Clara Crocodilo. Acho ele histórico. Mas não era essa a instrumentação ideal quando foi para o estúdio. Devido às contingências, os arranjos foram escritos para três saxofones, um trombone e um clarinete. Vinte anos depois, confessa:
- Os metais que eu queria não eram esses, mas eram os que eu tinha no momento. Agora quero fazer do jeito que sempre imaginei - com metais mais pesados, com trombone, trompa, trompete.
Nos atuais e bons tempos, sem dúvida a partitura sofrerá mudanças. Não só pela presença de novos músicos, mas também porque agora tocam muito melhor. Naquela época todo mundo estava começando, acredita Barnabé. Musicalmente, posso fazer coisas mais ousadas. Com certeza vou escrever mais difícil, promete.
Ousadia é uma característica que sempre acompanhou o compositor, e isso ele tinha de sobra nos idos de 1980. De certa forma guardei-a, ao mesmo tempo em que acumulei experiência, avalia. Parte dessa experiência pode ser creditada aos projetos sinfônicos. Escrevi para quarteto de cordas, para orquestra, para dois pianos e percussão, para banda sinfônica. Então isso se reflete também na hora que você vai fazer a partitura do espetáculo.
Ele explica que sua atual Clara Crocodilo virá naturalmente mais amadurecida, ostentando ao mesmo tempo o frescor e a energia da jovialidade. Enfim, uma mulher imprescindível. No palco a formação dos músicos em nada lembrará a original. Acho que não terá ninguém daquela gravação, senão será um remake e não é o que eu quero, avisa.
Para o próximo ano já estão formalizados vários projetos. Entre eles um que acontecerá entre julho e agosto, no Rio, promovido pelo Banco do Brasil, que juntará Tim Rescala, Chico Melo, Tato Taborda e Tom Zé. Vou escrever alguma coisa para isso, e deverei levar ao disco. Vai ser uma peça camerística, adianta.
Arrigo Barnabé prepara-se para compor a trilha sonora de Oriundi. No momento está recebendo material, assistindo às fitas para sentir o clima do filme. Porém, o projeto só vai deslanchar quando se encontrar com o diretor Ricardo Bravo. Não dá para fazer um trabalho em separado. Está tudo na cabeça do diretor, ele é quem sabe como será sua obra. Então, estou esperando terminar a montagem do filme.


