São Paulo, 26 (AE) - A voz, agradavelmente grave, soa tímida quando apenas fala; mas, ao cantar, preenche o espaço, inebria, encanta. Ao longo dos anos, a cantora Clara Becker buscou na música a melhor forma de elevar o espírito. Enquanto não se sentiu satisfeita, manteve-se distante dos palcos, estudando e à espera do tom certo. Terça-feira à noite, quando iniciar o show "Falando de Amor", no Teatro Crowne Plaza, ingressa definitivamente na carreira profissional. "Não tive pressa para chegar a esse momento", garante.
A persistência foi uma prova de fogo graças à preciosa herança familiar. Clara é filha do ator Walmor Chagas que, prestes a completar 70 anos, estréia na direção musical justamente no show de amanhã; e de Cacilda Becker, uma das maiores atrizes da história do teatro brasileiro. A tradição indicava-lhe a dramaturgia nos palcos, mas, se realmente participou de algumas peças, Clara sabia que atingiria a plenitude quando se transformasse em cantora.
"Foram diversas fases de transformação, de amadurecimento, até chegar a esse show", comenta a cantora que, como se fizesse uma particular leitura musical, escolheu detalhadamente o repertório. Escolheu 20 músicas de grandes compositores brasileiros, como Chico Buarque ("As Vitrines", "A Gente Vai Levando", "Até Pensei"), Lupicínio Rodrigues ("Volta") e Fátima Guedes ("Absinto"). Convidou o pianista Júlio Ricarte e, sob a orientação de Walmor, planejou o show, ensaiando em Guaratinguetá, cidade onde mora com o pai, desde 1994.
"Pretendo mostrar as diversas facetas do amor", explica Clara, encontrando ainda um significado especial nas músicas. "Cada canção remete a algum momento da minha vida." Como, por exemplo, a composição que escolheu para o bis, uma das duas únicas não-brasileiras (a outra, Í Doux Visages Que Jai tant Aimé, é do francês Michel Legrand): "As Time Goes By", tema imortalizado no filme "Casablanca". "Era também a canção que marcava uma cena representada por Walmor e Cacilda", comenta.
Voz tímida - Clara iniciou aulas de canto quando estava com 18 anos, mas, apesar da bela voz, enfrentava os problemas de timidez. "Tinha o incentivo dos meus pais, mas não estava certa se esse era meu dom", lembra. Aos 24, profissionalizou-se e, incentivada pela ousadia do pai (que vendeu praticamente todos os seus bens para investir na construção do Teatro Ziembinski, no Rio), estreou na carreira de atriz.
Participou das principais montagens patrocinadas por Walmor Chagas, como "Prezado Amigo", em 1989, e Retrato Falado
no ano seguinte. Em "Prezado", espetáculo inspirado na correspondência trocada entre Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade, descobriu o escritor paulista e suas pesquisas folclóricas. "Foi quando me encantei com a canção "Viola Quebrada", escrita pelo Mário e inspirada em "Catulo da Paixão Cearense", conta Clara, que decidiu incluir a música no show. Trata-se, aliás, do único momento em que canta e toca violão.
Quando se preparava para encenar duas peças inspiradas em Machado de Assis, no início da década, Clara interrompeu suas atuações dramáticas. "Eu simplesmente temia que minha carreira de atriz fosse mais importante que a musical", explica. Decidiu não participar mais de nenhum espetáculo. A freada era necessária para que a cantora retomasse seus estudos sem sofrer pressão ou cobrança: "Precisava realmente fazer um balanço da minha vida."
Enquanto se preparava, Clara investiu no cinema, tornando-se produtora dos filmes "Ed Morte", de Alain Fresnot, e "Um Céu de Estrelas", de Tata Amaral. Aos poucos, vencia a timidez e adquiria confiança. Escolheu algumas músicas de compositores brasileiros e fez pequenas apresentações em bares do Rio e para amigos, em Porto Alegre. "Foram pequenos testes, em que eu avaliava minha voz e a reação da platéia", lembra.
Informantes - Depois de incentivada por músicos como Hermeto Paschoal, decidiu fazer um show, que estreou no Rio, no ano passado. Ainda insegura quanto à sua atuação, pediu ao pai que não fosse assistir. "Ele realmente não foi, mas enviou informantes como as atrizes Ítala Nandi e Camila Amado", diverte-se. O veredicto positivo convenceu-a a cantar em São Paulo.
Convidou Fauzi Arap para a direção, que acabou não assumindo por ter outros compromissos. Mas deixou dicas, como a escolha de um teatro intimista e o acompanhamento limitado ao piano. "Já me sentia plena e decidi convidar o Walmor para dirigir porque ele acompanhou todo o amadurecimento da minha carreira e saberia escolher a forma mais adequada", conta. O ator, radiante com a proposta ("Realmente eu esperava pelo convite"), preocupou-se com detalhes, orientando a cantora a utilizar seus dotes dramáticos na execução das músicas.
Preocupou-se em acertar uma linha dramática ao espetáculo, orientando colocação e iluminação. Walmor só não participou da escolha das músicas. "Eu fiz a seleção sozinha, primeiro com 60 canções que, depois de um processo sentimental, chegaram a 20", conta ela. "Escolhi músicas que foram importantes em minha vida."
Clara também se decidiu pelo pianista Júlio Ricarte, que participa de shows principalmente no Vale do Paraíba. "Além de ser um excelente músico, Júlio revelou ter a sensibilidade que eu julgo necessária para o espírito do show", explica a cantora.
A experiência foi plenamente positiva. "Senti que estou pronta para seguir carreira", confessa Clara, que vai usar figurinos de Caio da Rocha, responsável pelos modelos utilizados em um desfile em homenagem a Cacilda Becker. A mesma sensação de liberdade, aliás, sentida por Walmor. "Ela, finalmente, se desvencilhou da minha figura e agora está segura para construir sua carreira", comentou.
Além da temporada do show, Clara preocupa-se em cuidar dos detalhes da gravação de um CD com músicas românticas brasileiras. Por enquanto, não pretende acrescentar nenhuma composição própria. "Até compus algumas canções", conta. "Mas quero um pouco mais de tempo para avaliar."
Serviço - Clara Becker. De terça-feira a quinta, às 21 horas. R$ 12,00. Teatro Crowne Plaza. Rua Frei Caneca, 1.360, em São Paulo, tel. (11) 289-0985.