Claire Dolan é sobre prostituta que tenta integrar-se à sociedade
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quinta-feira, 09 de dezembro de 1999
Por Alessandro Giannini, especial para a AE 
São Paulo, 09 (AE) - Apenas dois filmes compõem o currículo de Lodge H. Kerrigan, cineasta americano de 35 anos, nativo de Nova York. Ficha curta, porém excelente. O primeiro trabalho foi "Limpeza (1995), sobre o universo psicológico de um assassino. Outro é Claire Dolan" (1998), que chega amanhã (10) aos cinemas de São Paulo. Acompanha uma prostituta (a inglesa Katrin Cartlidge) de alta classe no processo de libertação da profissão para realizar o desejo de ser mãe.
Kerrigan nasceu e ainda vive em Nova York. Falou para a reportagem de seu apartamento, em Manhattan. O pedido de entrevista foi recebido com surpresa. Ele não sabia do lançamento de "Claire Dolan aqui. "Ser diretor de cinema é mais ou menos como ser pai", comparou. "Depois de um tempo, seu filho sai do controle, desaparece e um belo dia você recebe uma ligação dele de algum lugar do mundo."
Enquanto "Limpeza" mostrava o que se passa na cabeça de uma pessoa doente e esquizofrênica - um assassino serial -, "Claire Dolan" fala da tentativa de uma pessoa marginalizada - uma prostituta - integrar-se à sociedade. A ação e a violência gráfica do primeiro causam choque em relação à frieza e à contenção do segundo.
"Como cineasta tenho de dar uma resposta visual para o fato de o meu personagem ser esquizofrênico em "Limpeza", por isso a violência crescente", explica. "Claire Dolan não é aceita pela sociedade por fazer sexo sem amor e, quanto mais ela quer se afastar desse mundo, menos frio e distante os ambientes que ela frequenta ficam - novamente, trata-se de um conceito visual."
Em resumo, para tudo há uma razão nos filmes do cineasta. Nada é gratuito, da violência ao sexo. Este último, no caso de "Claire Dolan, tem papel fundamental. Quando não está em algum emprego temporário, Claire está exercendo a profissão mais antiga do mundo. Tudo como manda o figurino: sem envolvimento e beijos na boca, frio como uma pedra de gelo.
Em nenhum momento, Kerrigan sucumbiu ao desejo de usar sexo explícito, como fez, por exemplo, a francesa Catherine Breillat em "Romance". "Não assisti a esse filme dela, portanto, não acho justo comentá-lo", adianta. "No entanto, não teria por que lançar mão desse recurso; cada cena de sexo em Claire Dolan" é diferente e tem uma função: mostrar como ela está se abrindo para a idéia de voltar a sentir as emoções que havia deixado de lado."
Nem vale a pena tentar comparações. Ao criar os conceitos que nortearam o filme, o diretor fez uma exaustiva pesquisa: estudou todos os clichês que permeiam contos de fadas sobre prostitutas que encontram príncipes encantados e se regeneram, como em "Uma Linda Mulher". "Fiz isso para eliminá-los completamente", revelou. "Queria fazer algo que fosse verdadeiro e levasse a uma reflexão; imagine como tudo seria diferente e mais interessante se a mãe de Jesus Cristo fosse Madalena em vez de Maria."
A escolha de Katrin Cartlidge foi uma das felicidades de Kerrigan. Ele havia pensado em um tipo específico de mulher e imaginava em fazer testes para achá-la. Foi quando um amigo da atriz e do diretor os pôs em contato. "Havia pensado em uma mulher do Leste Europeu, consequencia da corrente migratória de lá para cá", explicou. "Mas quando esse amigo em comum me apresentou Katrin eu a achei perfeita e, para evitar conflitos emocionais, decidi transformar a personagem em irlandesa."
Curiosamente, Kerrigan trabalha agora na criação de dois documentários sobre arquitetura. Curioso porque a arquitetura gigantesca de Nova York está onipresente em "Claire Dolan". "Todas as vezes em que Claire está fazendo sexo, ela está rodeada de janelas", explica. "É uma maneira de mostrar que numa cidade como essa não existe privacidade, principalmente para alguém como ela." Como está demonstrado, nada é por acaso nesse filme. Serviço - Claire Dolan. Drama. Direção de Lodge Kerrigan. Com Katrin Cartlidge, Patrick Husted, Vincent DOnofrio. Duração: 95 minutos. Distribuição: Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


