Civilização e barbárie são temas de conferências
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sábado, 26 de outubro de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Enquanto conceitos, a civilização e a barbárie são opostos, mas para o filósofo Adauto Novaes não há como pensar as duas definições como coisas distintas. ''Uma complementa a outra, só falta definir, na atualidade, quem é o bárbaro'', diz o mineiro de 62 anos, formado pela Escola Prática de Altos Estudos de Paris nos anos 70.
Para responder a questão ou apenas refletir sobre ela Novaes organizou o Ciclo de Conferências ''Civilização e Barbárie'', que começa nesta segunda-feira, no Sesc da Esquina, em Curitiba. O evento já teve passagem pelo Rio de Janeiro e São Paulo, além de uma versão reduzida em Porto Alegre. No próximo ano, a série de palestras será lançada em um livro homônimo pela editora Companhia das Letras.
A temática do ciclo foi motivada pelos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, no ano passado. Foi o auge, segundo Novaes, da crise da civilização do Ocidente, deflagrada nos idos do iluminismo. O tema das palestras passeia pelo renascimento, imperialismo, a indiferença e a incerteza. São assuntos abordados por alguns dos mais importantes nomes do pensamento, filosofia e teologia nacionais.
Para escolhê-los, Novaes partiu do trabalho em andamento de cada um dos conferencistas. A professora de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) e escritora Marilena Chauí, utiliza os seus estudos sobre Espinosa, por exemplo, para ministrar a palestra ''Fundamentalismo ou poder teológico-político'', onde aborda o medo, a superstição e a religião como manifestações do judaísmo e cristianismo, sempre a partir da análise do filósofo.
Mas o ciclo abre com um tema mais palatável, abordado pelo também professor da USP Gabriel Cohn. O professor de sociologia e escritor prepara uma coletânea de ensaios de teoria geral e cultura em Weber e na Escola de Frankfurt, a ser lançado pela Editora Azougue ainda sem data definida. No evento, ministra a palestra ''Indiferença, nova forma de barbárie'', abordando conceitos da civilização e da cultura e relacionando a indiferença como a face contemporânea do bárbaro.
Para Cohn, a indiferença é um traço estrutural básico da forma de organização das sociedades, que corresponde ao modo contemporâneo de operação do capitalismo. Ele utiliza registros de Kafka e Kavafis para explicar a esperança da chegada do bárbaro ou do ''salvador'' enquanto mudança. Mas como escreve Kafka e cita Cohn, ''O Messias só vem quando não é mais esperado''.
A indiferença também é tratada pelo escritor doutor em filosofia pela École des Hautes en Sciences Sociales de Paris, Newton Bignoto, que ministra a palestra ''Tolerância e Indiferença''. O objetivo da exposição, segundo ele, é o de investigar os limites e o significado da idéia de tolerância diante do reaparecimento de uma temática no caso, o 11 de setembro que faz lembrar todo um passado de perseguições e violências conduzidas em nome da defesa da superioridade de uma cultura sobre as outras.
Mas assim como defende o curador do evento, Adauto Novaes, a série de palestras também mostra que a crise ocidental, que teve o seu ápice com o atentado aos prédios símbolos da cultura americana, não é uma deflagração moderna.
A idéia de que vivemos uma crise, relata o professor de Filosofia Política Sérgio Cardoso, que ministra a conferência ''O imaginário da crise'', tem sido decorrente há pelo menos 150 anos. ''É invocada a partir de tantos fenômenos e pretextos diferentes, que seria interessante investigar quais os mecanismos que regem esse diagnóstico'', observa.
As palestras ainda abordam os temas ''O Olhar Mutilado'', por Eugênio Bucci; ''As redes do Imperialismo '', por Emir Sader; ''A Civilização do Renascimento'', por Sérgio Cardoso''; ''Pós-Humanismo: a invenção de um corpo estranho'', por Luiz Alberto Oliveira e ''Civilização e Incerteza'', por Maria Rita Kehl.
O ciclo completo das conferências, que começam sempre às 19h30, custa R$ 70,00, mas os interessados podem assistir palestras individuais, pagando R$ 6,00 cada. As vagas são limitadas. Vale lembrar, que a última temática apresentada por Novaes, em São Paulo, lotou os auditórios em que foi apresentada.
Novaes se destacou no cenário nacional no final da década de 80 quando passou a organizar os seus já famosos cursos. Em 1997 foi indicado para o Prêmio Multicultural Estadão Cultura, por se destacar como ''o homem que transformou a filosofia em best seller''. Ele ainda não preparou o tema do próximo ciclo, mas adianta que já fechou a série ''Conferência e Barbárie'' em Brasília e Belo Horizonte, além de levar o ciclo completo das conferências para Porto Alegre.
Serviço: Ciclo de Conferências Civilização e Barbárie, no Sesc da Esquina (Rua Visconde do Rio Branco, 969). De 28 de outubro a 7 de novembro. Informações pelo telefone (0xx41) 322 6500, ramal 351.


