CITAÃÕES
(...) nasci de uma saia velha de Tia Nastácia. E nasci vazia (...) Nasci, fui enchida de macela (...) e fiquei no mundo feito uma boba, de olhos parados como qualquer boneca. Feia. Dizem que fui feita que nem uma bruxa. Meus olhos Tia Nastácia os fez de linha preta (...)
Emília, em Memórias da Emília, de Monteiro Lobato
Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra. E acontece que não tinha consciência de si e não reclamava nada, até pensava que era feliz. Não se tratava de uma idiota, mas tinha a felicidade pura dos idiotas. E também não prestava atenção em si mesma: ela não sabia.
A Hora da Estrela, de Clarice Lispector
Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço.
Brás Cubas em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.
Macunaíma: o Herói Sem Nenhum Caráter, de Mário de Andrade
Cinquenta anos perdidos. Cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada. Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para que! Comer e dormir como um porco! Como um porco!
Paulo Honório em São Bernardo, de Graciliano Ramos





