Em entrevista concedida à jornalista da Folha de Londrina/Folha do Paraná Érika Pelegrino, publicada neste jornal, na última segunda-feira, o também jornalista José Arbex disse que as transformações mais profundas que estão ocorrendo no Brasil estão sendo protagonizadas por uma parcela da população disposta a criar um movimento de mudança nacional, embora esses fatos não sejam veiculados normalmente pela grande imprensa, que constrói a notícia de acordo com seus interesses políticos e econômicos.
Essas transformações estão ocorrendo em todos os setores da vida nacional e, na cultura, particularmente no circuito das artes, surgem, cada vez mais, espaços e modos alternativos de circulação de informações e agenciamentos de produtos culturais que permitem ao público interessado, um acesso, que há até pouco tempo, era impensável.
É certo que o uso dos meios tecnológicos trouxe maior dinamismo e velocidade para a propagação e exploração desse campo alternativo à cultura oficializada, vide a facilidade, hoje, de se produzir um Cd independente, criar um fanzine ilustrado, trocar idéias pela internet, recebendo textos e imagens ao mesmo tempo em que são criadas. Mas isto coincide também com o fim da ilusão em certas práticas políticas que não deram conta de produzir a inclusão da diversidade de projetos culturais existentes. E também com o fim da arte enquanto terreno sagrado de especialistas, que faziam crer na existência de espaços únicos e privilegiados para o seu acontecimento, isto é, sob suas asas.
Assim, grupos de ativistas de todas as áreas vão se organizando para resistir e propor alternativas para os que não querem ficar à mercê da passividade da programação que os grandes veículos de comunicação costumam impor. Para isto, apostam na existência de um público não-anestesiado, capaz de compreender, debater, discutir, fazer trocas e se envolver em outros enfoques relacionados à cultura. Procuram ampliar o uso dos espaços, tanto físicos como virtuais, como é o caso da internet – mas não só – por exemplo, criando redes possíveis de conexões. Mais do que chegar a um grande público, importam-se em ter o que dizer. E, longe da figura do héroi, juntam-se para combater por idéias e ideais comuns.
Dentro desse espírito, o espaço Agora-Capacete do Rio de Janeiro vem trazendo uma discussão séria e pertinente sobre artes plásticas no Brasil. Dois de seus participantes, Ricardo Basbaum e Eduardo Coimbra lançaram, inclusive, uma revista, a ‘‘Ítem’’, de curta duração, mas de importância que perdura a seus únicos quatro números.
Outro exemplo, também do Rio de Janeiro, é o Zona Franca, que acontece às segundas-feiras, no antigo prédio da Fundição Progresso, na Lapa. Com entrada a R$ 1,99, o público jovem tem comparecido ao espaço para ver experimentações de arte, bater papo, beber cervejas e principalmente trocar idéias e fazer as informações circularem.
De São Paulo, um exemplo é o projeto Linha Imaginária, que vem reunindo portfólios de vários artistas jovens e ou inéditos, para levar suas obras a galerias de arte de todo o país, que não teriam acesso a estes artistas e nem eles às galerias.
Entender a pertinência de tais projetos além do sucesso que eles poderão alcançar e ter clareza de sua especificidade dentro de um determinado contexto cultural, é garantir a integridade de seus princípios, independente do interesse dos grandes veículos em encampá-los. E esse é o desafio maior!
[email protected]

mockup