Circo dá o ar da graça
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sábado, 27 de abril de 2002
Jackeline SeglinReportagem Local 
A arte do picadeiro está de volta aos Projetos de Maio do Festival Internacional de Londrina (Filo) em formato de oficina para crianças da instituição Casa do Caminho. Coordenada por artistas da companhia chilena Teatro Del Aire, a atividade busca ensinar fundamentos da arte circense através de acrobacias, trapézio e da figura do palhaço. Desde o dia 17, cerca de 30 crianças de cinco a dez anos de idade estão se reunindo diariamente para aprender noções básicas dessa vivência.
Criada há dois anos, a companhia Teatro del Aire é formada por Paula Ortiz, Francisco Cuevas o Pancho , e Hector Calderón. No Filo, além de realizarem a oficina de circo, eles estarão apresentando o espetáculo Aqui Começa a Viagem, um misto de dança, teatro e circo.
Paula Ortiz conta que o trabalho da companhia chilena integra as áreas artística e social. A experiência realizada em Londrina já foi vivenciada pelo grupo de forma semelhante com crianças carentes do Chile. Pancho desenvolve trabalho com garotos de favela e diz que a companhia mescla conhecimentos técnicos sociais com noções artísticas. Integramos valores afetivos e trabalhamos mais com os sentidos, explica.
Nesta vivência na Casa do Caminho, o trio avalia que as crianças, apesar de ter uma vida mais estável que as do Chile, são como todas as outras, têm os mesmos conflitos, as mesmas diferenças. Os pequenos não compreendem que o que eles estão fazendo pode ser um trabalho. Para eles é uma grande brincadeira. Mas o principal objetivo é fazer a criança sentir que é tratada como uma pessoa, com direitos e obrigações. E também que aceite as diferenças entre elas. O tímido, o mais fraco, o menorzinho... todos têm espaço para fazer alguma coisa, comenta Hector.
Outro aspecto valorizado na oficina dos chilenos é o envolvimento dos pais. Queremos que eles se integrem à experiência, acompanhando as atividades dos filhos. Agora pedimos que eles ajudem a confeccionar os figurinos do espetáculo, conta Pancho. Nos três primeiros dias, lembra Hector, os pais não apareceram no local da oficina. Aos poucos, vieram observar, passaram a assistir e foram se interessando. Suponho que haja um intercâmbio em casa entre as crianças e os pais e isso ajudou no entrosamento.
Na segunda semana de atividades, as crianças foram agrupadas por especialidade, em núcleos de palhaços, acrobatas e trapezistas, para montar o espetáculo No Caminho do Circo, que terá apresentação aberta ao público no dia 3 de maio, às 19 horas, na Casa do Caminho.
A criançada participa dos exercícios propostos e todos parecem estar em casa. Muito à vontade. Subir no trapézio, dar uma cambalhota, fazer uma estrela. Ah, é com eles mesmo. E quando o assunto é palhaçada... a tarefa é para os Irmãos Fabrício. Dois garotos, vestidos a caráter, mostram que, desde cedo já têm as manhas de fazer graça. Aquela mesma inocente e tradicional graça que o palhaço faz no picadeiro do circo e leva o público às gargalhadas. Da mesma forma, os pequenos conseguem divertir os coleguinhas que assistem ao ensaio. A vergonha, claro, ainda não foi completamente eliminada. Os rostinhos vermelhos e a feição meio sem graça denunciam. Mas vale tudo. O que eles querem é fazer o que foi ensaiado, bem direitinho.
No trapézio, o desafio é dominar o medo e concentrar a força nos braços e pernas. Vale à pena o esforço. A cada sequência finalizada, um sorriso está estampado no rosto, mais uma etapa foi vencida. Da mesma empolgação compartilham os artistas nas acrobacias de solo. A tensão dos movimentos preparatórios para a pirâmide se esvai assim que o último artista-mirim levanta os braços à espera do aplauso do público.
O pequeno Felipe Eduardo, de 7 anos, fala que a oficina da qual participa é muito legal porque tem muitas, muitas palhaçadas. Por quê? Porque eu quero.... O apresentador e palhaço Lucas Henrique, de 8 anos, se sente em casa ao anunciar a próxima atração do espetáculo. Respeitável público, com vocês.... O garoto achou legal a história de entrar para uma oficina de circo e está bem à vontade com os exercícios, os professores e os colegas. Aqui nada é difícil, tudo é bem fácil.
No trapézio, Luciane Cristina, 10, conta que nunca teve uma experiência como a que está vivendo agora. Até que é meio fácil. O difícil mesmo é quando a gente tem que ficar só com uma perna no trapézio. Dói..., conta. Juliana Gabriela Siqueira, 8, compartilha da opinião da colega. Principalmente quando está pendurada no trapézio e tem de segurar alguém pelo braço e de ponta cabeça. Tenho vontade de ser trapezista de circo sim, revela, em sonho.
Lucas Bogado, 7, está se ambientando com as acrobacias de solo. Aprendi a fazer cambalhota, parada de mão e aranha (espécie de ponte), que é o mais difícil, diz. O irmão mais velho, Otávio Bogado, 9, também quer falar sobre suas façanhas no trapézio. Olha, eu sei fazer aranha. Já Hyank Toni Góes, 7, não esconde a vergonha de conversar com a reportagem e diz apenas que quer ser palhaço.
Deixando a timidez e a conversa de lado, todos querem mesmo é mostrar o que sabem fazer. Olha aqui a minha parada de mão..., ó lá o que ela está fazendo no trapézio..., deixa eu mostrar o que aprendi!, gritam ao mesmo tempo, no pátio da Casa do Caminho.


