Cinzas sobre o deserto
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Deserto de Sonora/ReproduçãoNuma época em que a morte de personalidades é convertida em grandes espetáculos públicos uma notícia veiculada na semana passada realizou caminho inverso. Jornais do mundo inteiro anunciaram, com certo espanto, a morte do escritor Carlos Castaneda. Os jornais não noticiaram somente a morte de Castaneda, noticiaram que desconheciam tal fato ocorrido dois meses antes.
Castaneda morreu silenciosamente em 27 de abril, em Los Angeles, vítima de câncer no fígado. Segundo seu desejo, foi cremado e suas cinzas espalhadas no deserto do México. A notícia foi anunciada somente no último dia 20 pela executora de seu testamento, Deborah Drooz.
Todo esse mistério foi o desfecho natural da vida de um homem enigmático. A existência de Castaneda é coberta de névoa. Informações contraditórias, parte delas oferecidas pelo próprio escritor, alimentaram o mistério que o cercam. Avesso à imprensa, não concedia entrevistas, não se deixava ser fotografado, filmado ou que sua voz fosse gravada. Acreditava que estes meios eram métodos de fixar uma pessoa no tempo, coisa que não desejava.
O local de data de seu nascimento são contraditórios. Alguns afirmam que nasceu na cidade de Cajamarca, Peru, em 25 de dezembro de 1925. Outros alegam que teriam nascido em Juqueri, São Paulo, em 25 de dezembro de 1935. Entre uma data e outra há uma diferença considerável de 10 anos. Castaneda teria morrido com 72 ou 62 anos.
Emigrou para os Estado Unidos na década de 50 passando a viver em Los Angeles. Como estudante de antropologia da Universidade da Califórnia passou a estudar plantas medicinais utilizadas pelos índios yaquis. No desolado cenário do deserto de Sonora, entre o Arizona e o México, guiado pelo índio brujo Don Juan Matus foi introduzido em plantas alucinógenas utilizadas como passagem para viagens a outros mundos.
Carlos Castaneda (ou segundo alguns, Casta¤eda) ganhou fama mundialmente logo na publicação de seu primeiro livro The Teachings of Don Juan (literalmente Os ensinamentos de Don Juan) em 1968. Publicado no início dos anos 70 no Brasil, o livro ganhou o nome de A Erva do Diabo.
A obra narrava sua experiência, sempre guiados pelas mãos de Don Juan, em conhecer realidades paralelas com a utilização de três drogas naturais, o peiote (lophophora williamsii), a datura (datura inoxia) e cogumelo (psilocybe mexicana). Don Juan afirmava que nosso mundo, que acreditamos ser o único e absoluto, é apenas um em meios a um conjunto de mundos consecutivos, arrumados como as camadas de um cebola. Dizia que, apesar de sermos energicamente condicionados a perceber apenas nosso mundo, ainda temos a capacidade de entrar nessas outras regiões - que são tão reais, únicas, absolutas e envolventes como nosso mundo.
O livro se transformou rapidamente em best seller traduzido para várias línguas. Foi a obra emblemática dos anos 70, o pontapé inicial para a chamada Nova Era (new age). Passou de mão em mão, de donas de casa à místicos malucos alcançando grande popularidade.
A Erva do Diabo era o reflexo de um contexto maior, o reflexo de uma época. O escritor inglês Aldous Huxley (1894 - 1963) havia tratado com completa erudição da expansão da consciência através da utilização de drogas alucinógenas, especialmente a mescalina/peiote, em dois ensaios históricos, As Portas da Percepção (The Doors of Perception) de 1954 e Céu e Inferno (Heaven and Hell) de 1956. Timothy Leary (conhecido como o papa do LSD) havia concluído seu trabalho de tratamento psiquiátrico através do uso do LSD na Universidade de Harvard. A contracultura andava de vento em popa, o misticismo cavalgava pelas estrada em direção ao Oriente e às civilizações nativas das Américas. Carlos Castaneda apareceu exatamente neste contexto, com o conteúdo certo na época certa e, certamente, no país certo.
Dando continuidade ao aprendizado de feiticeiro, depois de A Erva do Diabo Castaneda publicou outras obras que consolidaram seu fama e fortuna: Uma Estranha Realidade, Viagem a Ixtlan, Porta Para o Infinito, O Presente da Águia, O Fogo Interior, O Poder do Silêncio, O Segundo Círculo de Poder e A Arte de Sonhar. Todos eles publicados no Brasil pela Editora Record.
A existência de seu mestre, o bruxo mexicano Don Juan Matus, nunca foi comprovada. Milhares de fãs, místicos e malucos invadiram o deserto de Sonora, no México, em busca do sábio Don Juan. Ninguém o encontrou. Isso contribui para a hipótese de que Castaneda teria inventado a existência do brujo e todos seus ensinamentos. Teria realizado uma grande ficção sob a roupa da realidade.
Em seu último livro A Arte de Sonhar (The Art of Dreaming) publicado em 1993, o escritor deixa claro que os ensinamentos que recebeu não pertenciam à milenar tradição do xamanismo. Preferia chamar as etapas de seu aprendizado de feitiçaria: Para Don Juan, feitiçaria era o ato de incorporar alguns princípios especializados, teóricos e práticos, sobre a natureza e o papel que a percepção representa em moldar o universo ao nosso redor. Pode-se encarar os ensinamentos de Don Juan e a própria experiência de Castaneda como um fim em si mesmo. Muito diferente da tradição do xamanismo, onde o xamã é o responsável pela proteção espiritual e física da comunidade, um médico que trafega em vários mundos.
Em sua autobiografia, Tomothy Leary deixou registrado o seguinte comentário sobre a obra de Castaneda, a qual ele considera de grande importância: Ele parece ter conseguido realizar uma das mais ruidosas e bem-sucedidas mistificações literárias do século 20, uma demonstração do poder do destacado guerreiro para construir seu próprio universo proveitoso. A hábil descrição de Castaneda do professor (Don Juan) cheio de truques ilusórios, trabalhando furtivamente, planejando jogos ilusórios, rindo daqueles que conseguia enganar com a aparência de um humilde camponês é brilhantemente exemplificada pelo próprio modo de vida de Castaneda. O que há de mais doloroso nesse problema da enganação é que ele deriva, na evolução humana, do estágio do caçador-predador. Esse modo furtivo deixa o mágico abandonado num mundo oculto, na insegurança da selva, um universo paranóico onde compete com os praticantes da magia negra.
O melhor exemplo da extensão dos escritos de Carlos Castaneda está no sucesso editorial dos livros de Paulo Coelho. Como Castaneda, trabalhando com o conceito de conhecimento pessoal, Coelho ganhou fama e fortuna expressando arquétipos universais através da experiência mística pessoal. Como Castaneda, Coelho utiliza o método de ficcionar o conteúdo da realidade a ser transmitida.
Aldus Huxley, em sua obra A Filosofia Perene, aponta que aquilo que está sendo repetido há milênios neste sentido é simples e óbvio: A finalidade de todo ser humano é descobrir o fato por si mesmo, para encontrar aquilo que realmente é.





