São Paulo, 05 (AE) - O cinema nasceu documentário com os irmãos Lumire e virou fantasia com Georges Mélis. Pode-se dizer que a fantasia domina hoje o cinema, principalmente o de Hollywood, que é uma grande indústria de entretenimento, mas o documentário continua sendo uma forma importante de conhecimento e expressão, como provam os filmes Santo Forte e Fé. Jean-Luc Godard, o grande revolucionário do cinema francês nos anos 60, chegou a escrever, certa vez, que todos os grandes filmes de ficção tendem ao documentário, assim como todos os grandes documentários tendem à ficção.
Dentro desse princípio, e também do conceito antropológico de que é preciso abrir-se para o outro e para o diferente até como forma de autoconhecimento, começa amanhã (06) no Cinusp Paulo Emílio o 3.º Festival do Filme Documentário e Etnográfico. O festival ocorre em Belo Horizonte e, depois, uma seleção de filmes percorre o País na forma de mostras itinerantes. A de São Paulo vai até o dia 17 no cinema da USP, com sessões de segunda a sexta. Uma das atrações especiais da programação é o docudrama de Volnei de Oliveira Milagre em Juazeiro, sobre a beta Maria Araújo e o maior mito religioso do Nordeste, o padre Cícero, que passa no dia 10.
Com dois debates - na quinta-feira, às 20h30, com o documentarista Alan Rosenthal, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e da Escola de Cinema e TV da Grã-Bretanha
e no dia 16, também às 20h30, com Ruben Caixeta, antropólogo e cineasta mineiro, organizador do 3.º Festival do Filme Documentário e Etnográfico -, o evento ocorre simultaneamente ao lançamento do novo número da revista Sinopse, voltado inteiramente à discussão das novas formas do documentário.
Na carta de princípios do festival, Caixeta diz que a mostra não tem compromisso com a imagem limpa. "O sujo é bem-vindo, desde que esteja a serviço de uma nova estrutura estética e narrativa." Ele acrescenta: "Queremos antropologia, cinema e vídeo para provocar um deslocamento no olhar e revelar a alteridade por completo."
O programa desta segunda-feira (06) é formado por três vídeos do brasileiro radicado na França César Paes. Angano, Angano mostra narrativas orais sobre mitos da cultura de Madagascar que se superpõem a cenas do cotidiano dessa cultura; Aos Guerreiros do Silêncio contrapõe imagens de pescadores da Amazônia e criadores de rena da Lapônia; e Ensopado de Awará usa o prato típico guianense para discutir a diversidade de elementos que compõe a identidade desse território francês. Serviço: 3.º Festival do Filme Documentário e Etnográfico. Em vídeo. De segunda a sexta, às 18h30. Grátis. Cinusp - Cidade Universitária. Rua do Anfiteatro, 181. Colméia, Favo 4, tel. 818-3540. Até 17/12

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