O desconforto em estar perto de alguém pode resumir uma atração. Uma condição, estado, que também é de amor. Há uma crueldade no sentimento: saber de muitas coisas e desconhecer outras nas entrelinhas.
O adestramento desses humores faz os personagens do livro ''Pitanga'', de Carlos Eduardo de Magalhães, beirarem um cinismo sensual. Todos eles também expõem suas fragilidades no texto do autor que, além de outros livros, é co-roteirista de ''Corpos Celestes'', vencedor da primeira edição do Prêmio de Roteiro do Paraná, em 2004. O filme, dos diretores Fernando Severo e Marcos Jorge, de ''Estômago'', está em fase de finalização e deve estrear até o início de 2009.
São personagens a despencar em cada linha de um arranha-céu chamado São Paulo e que chegam lá embaixo, na última página do livro, com a imagem de si, a que o mundo conheceu e o significado de todas as coisas mortos - como toda atração e formas de amor podem estar sujeitos.
Destituindo dos personagens qualquer rancor moral, que os azedou ao longo de suas trajetórias no romance, Magalhães vai destruindo as relações, como a de um casal em 35 anos de intimidade em que ele fingia toda noite necessitar e ela nunca tinha dito que gostava de sexo.
A roda dessas relações é a história do milionário Gilberto Varcellos, que atrai o leitor pelo que a fama desperta, mas os sentimentos de afeto ou desemor ao personagem são o que mais desconforta o leitor, que tem nas mãos uma obra para ser lida de uma só vez - como são consumidas as verdadeiras paixões.
Com um texto de arquitetura paulistana e que leva às ruas sofisticadas como a Oscar Freire, não deixa de mostrar os contrastes na cidade que nunca dorme e revelar, através de Varcellos, os pensamentos da elite. Na obra, o autor dá a sua resposta sobre quem é a São Paulo da USP, Estação Júlio Prestes, bairro da Liberdade, os edifícios Copan e Itália e dos Cingapuras e, atrás deles, as favelas.
O mais impressionante e bisonho é conhecer a metrópole das oportunidades de gente como Varcellos e dos que os servem, como Gislaine da Silva Ferreira. ''Não sabe tantas coisas, ela. Não sabe o nome do publicitário que bolou aquele painel exposto perto da escada rolante, à frente do qual se detém alguns segundos para olhar, pensando que aquelas ofertas pareciam mesmo boas. Não sabe que existe um mecânico que se chama Lindomar, que detesta o próprio nome, também detesta o mar, tantas gozações que sofria de pequeno. Ela não sabe que Lindomar se confundiu e não trocou o disco do freio do ônibus 437, pelo que será despedido dali a dois dias, quando forem averiguar as causas do ocorrido'', revela o autor.
Gislaine não sabe muitas outras coisas, como os demais personagens do livro - o que acontece também na realidade em que um desconforto diante de alguém pode ser atração e que essa condição revela alguma forma de amor. Os personagens da literatura de Magalhães existem para nos atrair.
SERVIÇO
- Pitanga
Autor - Carlos Eduardo de Magalhães
Editora - Grua
Páginas - 223

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