Cinesesc reabre com mostra sobre o reveillon 2000
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domingo, 03 de outubro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 04 (AE) - Fechado desde julho do ano passado, o Cinesesc reabre hoje à noite, em alto estilo, com uma sessão especial para convidados. Será projetado o novo filme de Sérgio Rezende: "Mauá, o Imperador e o Rei", que estréia no dia 15. Amanhã (05), o Cinesesc reabre para o público com um programa especial: os filmes da série "O Ano 2000 Visto por...", menos o episódio de Walter Salles, "O Primeiro Dia", que, no País, terá lançamento isolado.
Luiz Zakir, gerente e programador do Cinesesc, detalha as novidades, que vão saltar aos olhos de quem for à sala da Rua Augusta, a partir de ãmanhã. Desde o começo do ano passado, já havia planos de fazer uma reforma na sala. Ela foi acelerada quando ocorreu um incidente. Uma das placas do teto não chegou a cair, mas ficou pendurada, o que levou ao fechamento da sala durante alguns dias. A reforma virou quase uma reconstrução do Cinesesc.
O projeto é do arquiteto Luiz Telles. Ele respeitou a estrutura geral do prédio, mas deu um tratamento clean ao espaço. O Cinesesc é o mesmo, mas está totalmente mudado. O investimento foi de R$ 600 mil, incluindo o novo maquinário (e sistema de som). O bar do interior foi mantido e uma das novidades é que, no hall, foi instalada uma cafeteria.
São 329 lugares, oito a menos do que havia antes. O novo cinema conta com espaços especiais para deficientes e poltronas especiais para obesos (com o dobro do tamanho dos assentos normais). Zakir destaca que a sala ficou mais moderna e confortável, sem perder suas características essenciais. E, o que é mais importante, vai prosseguir na mesma linha de programação, privilegiando os lançamentos de qualidade. Desta maneira, forma-se um eixo ao longo da Rua Augusta, com o Cinesesc entre o Espaço Unibanco de Cinema e o Estação Vitrine, todos lançadores especiais.
Depois de "O Ano 2000 Visto por...", que fica só uma semana em cartaz, a sala integra-se ao circuito exibidor da 23.ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, de 14 a 28. Logo em seguida, está previsto um lançamento importante: "Fé", o novo documentário de Ricardo Dias. E mais Zakir não antecipa. "Ainda estamos fechando a programação e eu só posso dizer que vamos retomar com nosso público com títulos de exceção". Réveillon - O primeiro programa não poderia ser mais atraente. "O Ano 2000 Visto por..." foi desenvolvido como série para TV e cinema pela rede Arte, da França, e pelo Comitê Francês pelas Comemorações do Réveillon do Ano 2000. Nove cineastas independentes foram convidados para criar histórias sobre a entrada do próximo milênio. O Cinesesc vai mostrar oito desses filmes. O traço comum entre eles talvez seja um certo pessimismo em relação ao próximo milênio e, mais do que isso, uma visão desmistificadora do réveillon do ano 2000.
Em todo o mundo há uma corrida para os festejos desse réveillon tão especial. Os realizadores da série são céticos. O operário de "Tamás e Juli", da húngara Ildiko Enyedi, que abre amanhã a programação, quer passar a noite com a namorada, mas entra na escala de fim de ano do local em que trabalha e é forçado a passar o réveillon no fundo de uma mina. Os protagonistas de "Sanguinários", a Ilha do Fim do Mundo, do francês Laurent Cantet, cineasta que esteve, há pouco, no Festival do Rio 99, isolam-se do mundo para fugir às comemorações. O filme passa quarta-feira.
O mais humorado de todos talvez seja o americano Hal Hartley. Em "O Livro da Vida", que também passa quarta-feira, Martin Donovan, de terno e laptop, é a moderna encarnação de Jesus Cristo, que vem à Terra para julgar a humanidade no último dia do milênio. Ele chega acompanhado de uma assistente sugestivamente chamada de Madalena e pecadora como sua congênere da Bíblia. E enquanto Jesus cancela o Apocalipse, o Diabo, também de terno e gravata, vai de bar em bar tentando corromper algumas almas puras.
Hartley, minimalista como sempre, pode exercitar seu humor cool, mas o mais radical de todos os filmes e diretores da série vem de Taiwan e é assinado por Tsai Ming-liang, o autor de O Rio. Chama-se "O Buraco" e foi exibido no Festival de Cannes do ano passado. Ming-liang ambientou seu filme numa cidade que sofre os efeitos de um aguaceiro que parece o dilúvio. Enquanto chove torrencialmente (a água é sempre importante em seu cinema)
o morador de um prédio de apartamentos descobre um rombo no meio da sala. É o buraco do título.
Por meio dele, relaciona-se com a vizinha do andar de baixo. O filme termina com as mãos que se tocam, lembrando o célebre afresco de Michelangelo no Vaticano. E tudo com uma encenação que privilegia as canções de uma famosa artista de Taiwan nos anos 30. Ming-Liang, o Bresson da virada do milênio, prova mais uma vez que a impossibilidade de comunicação é, paradoxalmente, a única forma de comunhão entre os homens. Serviço - Mostra "2000 Visto por..." Amanhã (05) na abertura, às 16h30 e 19h30, Tamás e Juli, de Ildiko Enyedi, Fr-Hungria/97, com Marta Angyal; às 18 e 21 horas, A Vida sobre a Terra, de Abderrahmane Sissako, Mali/98, com Nana Baby, Mohamed Sissako. R$ 6,00 (segunda a quinta) e R$ 8,00 (sábado, domingo e feriado). Cinesesc. Rua Augusta, 2.075, tel. 282-0213. Até 12/10


