São Paulo, 22 (AE) - Mario Kuperman é reticente às homenagens. Não gosta de centrar o foco na sua pessoa, mas na sua obra. É uma obra respeitável: 25 filmes documentários, uma dúzia de romances. Amanhã (23) à noite, Kuperman terá de fazer uma exceção. O Cinesesc realiza, às 20h30, a sessão de lançamento de três médias que ele dirigiu. O evento é gratuito, aberto aos interessados. São três filmes de 25 minutos cada - "Tropeiros, Fibra e "Do Tejo ao Tietê". Formam um bloco coerente e harmônico.
O diretor ficou tocado pela definição que ouviu da boca de Ana Maria Cerqueira Leite, assessora da diretoria do Sesc, que mantém o Cinesesc. Depois de ver os três filmes numa sessão especial, ela disse que não tinha visto apenas três filmes, mas uma obra. Kuperman não é um revolucionário da linguagem. Sua revolução é outra. Os vínculos que unem esses filmes aos outros que ele realizou não são formais. São antes de perspectiva, como diz o autor. Inscrevem-se dentro daquilo que Kuperman sabe ser um cinema de certa forma alternativo. O que ele quer, com seus filmes, é discutir o papel que o cinema pode desempenhar dentro de uma sociedade que procura conhecer-se melhor.
Sobre "Tropeiros, Kuperman diz que o tropeirismo começou quando os paulistas foram buscar, nos pampas gaúchos, burros e mulas capazes de substituir, na exploração das minas de ouro, o trabalho feito, até então, por escravos. Kuperman vê nos tropeiros os antecessores do Mercosul. A indústria de burros e mulas surgiu na Argentina para integrar o sul do País.
"Fibra" começou a ser rodado há seis anos. Trata da lã e do algodão, mas aborda também a seda, o sisal, a juta e a piaçava. Kuperman conta a história da fibra para falar sobre a auto-superação, o esforço que pode levar o homem além de seus limites. "Do Tejo ao Tietê discute o encontro das técnicas náuticas portuguesas com o modo de navegar dos silvícolas. São filmes que poderiam inscrever-se no quadro dos 500 Anos do Descobrimento. Kuperman observa, a propósito, que vem fazendo filmes sobre o espírito dos 500 anos desde o início de sua carreira. Não precisou dessa bandeira para aprofundar o desejo de colocar em debate as raízes nacionais.
Sua crença, há muito anunciada, é que "o filme documentário requer, para que o processo de comunicação se complete, o debate de suas informações pelos espectadores". Por isso mesmo, ele quer aproveitar o intervalo de dez minutos entre um filme e outro para debater com o público. Kuperman não gosta de misturar o cineasta com o romancista, mas nunca é demais chamar a atenção para os livros que ele escreveu. O primeiro, de 1969, "As Regras do Jogo, virou filme de Maurício Rittner com Adriana Prieto - Uma Mulher para Sábado. O mais recente, "Ponto de Bala, surgiu nas livrarias no começo do ano passado.
Sofreu o pior dos boicotes - a mídia, praticamente, o ignorou. Kuperman sabe que não se pode seguir uma via alternativa, fora do mainstream da indústria cultural, sem pagar um preço por isso. Mas o livro, editado pela Marco Zero, transfere, para o domínio da litetatura, a mesma preocupação de falar de forma coerente sobre o Brasil que há nos filmes.
"Ponto de Bala" trata de sem-terra, da forma como a imprensa fala do assunto e discutindo ética jornalística. Começa em alta voltagem - uma briga num acampamento, daí transferindo-se para uma redação de jornal, onde repórter e editor discutem, mais do que o enfoque da matéria, se ela será publicada. É um início forte, cinematográfico. Kuperman faz a ressalva: "O livro é todo forte." Quanto a ser cinematográfico
trabalha num e outro médium sem misturar linguagens. É um intelectual sério, empenhado em chegar ao coração do público sem concessões.

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