Cinemice: o amor pelo cinema desde os cinemões até o cinemesmo
Menino e rapazola frequentei sessões domingueiras duplas, uma do começo ao fim da tarde quando começava a outra
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sábado, 22 de novembro de 2025
Menino e rapazola frequentei sessões domingueiras duplas, uma do começo ao fim da tarde quando começava a outra
Domingos Pellegrini 
Fui cinemeiro, chegando a ir três vezes num dia aos cinemões que então lotavam. Até por gostar de artes amo cinema, que junta as artes do teatro, da música e da fotografia, já que as imagens em movimento são fotogramas se sucedendo, tudo a serviço da ancestral arte de contar histórias.
Minha mais antiga lembrança de vida é de cena final de um filme em que, depois de fincado no chão, o cajado de São Pedro começava a enfolhar (no Cine Ouro Verde, inaugurado em 1952, então eu devia ter uns três anos). Depois menino e rapazola frequentei sessões domingueiras duplas, uma do começo ao fim da tarde quando começava a outra, com os mesmos dois filmes mais desenhos e seriados como do Zorro, que sempre se metia em desastrosas enrascadas mas, no domingo seguinte, sempre se salvava...
Era o tempo do cinemenino, quando a meninada trocava figurinhas na calçada antes de entrar no cinemão, para aplaudir e gritar batendo os pés nas cenas mais heróicas.
Depois vivi o cinamoro, o cinema como ponto de encontro de rapazolas e moçoilas, que ficavam sentadas com lugar vago ao lado, esperando ser abordadas por algum dos flertadores que vagavam pelo imenso salão antes do filme começar – até que, com as luzes apagando, aconteciam as abordagens, o flertante perguntando se a moçoila estaria guardando para alguém o lugar a seu lado. Ali podia então começar namoro ou casamento, e assim o cinema começou muitas famílias.
Depois os cinemas foram em público e prestígio esvaziados pelos vídeocassetes, que os jovens de hoje nem sabem o que foi. Cinemas fechavam enquanto videolocadoras abriam em penca como hoje as farmácias. Os vídeos levavam os filmes para as casas, e agora, com a net, os filmes parece que ficam em casa, num depósito chamado streaming, mas não, ficam num depósito distante que só se pode acessar pagando mensalidade (a palavra “streaming” significa fluxo contínuo, que porém cessa se você não paga, ou seja, o cinema continua a ser a arte mais dependente de dinheiro).
Assim se vê mais filmes que nunca, portanto também mais gente fumando, pois como fumam em filmes! Deram em nada as denúncias de que indústrias de cigarro financiam filmes desde que com personagens fumantes, e parece plausível porque nos filmes aumenta a fumação enquanto na realidade o número de fumantes vai sempre diminuindo...
Também intriga ver como nos filmes os personagens digitam ligeirinho no celular, quando na realidade ficamos tempo digitando no tecladinho e depois conferindo eventuais erros. Mas claro que nos filmes é para agilizar as cenas, é a cinemetria,
Entretanto irrita ver tantos filmes da era cinemanet começando com cena impactante, logo seguida de legenda: “Uma semana (ou três dias ou dois anos) antes”... Com isso muitos filmes como que vestem uniforme, igualando-se ao tentar fisgar o telespectador antes que ele, com net facilidade, mude para outro filme... Assim os filmes começam como se fosse o mesmo filme: chegamos ao tempo do cinemesmo.


